24 de janeiro de 2012

Som e Fúria




Pessoas que acreditam que o mundo pode melhorar, crentes que ele está prestes a acabar, mas a humanidade terá uma salvação, isto é, uma libertação. Lenine, cantor pernambucano, já disse em entrevista: "Minha mãe acreditava que ir á igreja é comunicar-se com Deus, enquanto meu pai não acreditava em Deus e desde os oito anos ele permitia que os filhos optassem em ficar em casa para poderem se conectar com o divino de outra forma, pela música".

Penso que o pai do Lenine não seria tão gentil em atribuir religiosidade (aqui na conotação de relligare, reconexão com o divino) em qualquer música. Teríamos que clarear o conceito de divino, mas na ânsia de clarear poderíamos chegar a obscurecer, como acontece nesse monte de textos acadêmicos. Por isso, divino deve ser entendido como uma sensação estética que beire o metáfisico e, por isso mesmo, o transcendente.

É isso que acontece comigo quando escuto a musicalidade "Coldplayliana". Claro que preciso de algumas condições para que sinta a minha alma pelos meus dedos até as pontas dos cabelos. Com isso, acredito que Coldlay cumpre a principal função da música moderna: em tempos de falta de religião, sentidos de vida e niilismos geradores de depressão, a música salva.

Agora, eu fico aqui me pergutando por qual motivo ela me faz conectar com o divino mesmo?

Bem, poderia ser bem pragmático e elaborar uma lista. Mas de maneira delicada, discorrerei em bula de remédio de composição química tal qual o Lenine que formou-se em Engenharia Química (sabia?):

25% de pianolina ou violino.
20% de voz crescentina e sussurada, vezenquando.
10% de preocupação social e boa reputação.
20% de um refrão pop que grude na cabeça como uma oração seguida de riffs comportados e cores alucinantes.
25% de ... segredo, mistério, obscuridade, nonsense principalmente nas letras da música!

Para mim, a música do Coldplay(do disco Viva la Vida à Mylo Xyloto) é um louvor ao que há de melhor e de Deus dentro da gente. Digo mais: a música tem o poder de movimentar, bem sabido, algumas agem do corpo ao espírito, outras, do espírito ao corpo. Não há dúvida em qual categoria a banda de "Rock calcario"(como intitula o vocalista e líder da banda) esteja inserida. Assim, acabo de descobrir de que em mim, em nível musical, espantosamente, a essência precede a existência.

Comprove o que eu digo, escute Life in techinocolor, quem sabe Paradise. Agora, você tem que saber que há contraindicações do efeito químico. Você precisa ter um som que não tenha ruídos, precisa se concentrar um pouquinho, pedir um pouquinho de silêncio aos familiares ou pessoas que dividam o quarto e deixar que tudo fluirá. Você vai ver, ou melhor, sentir.

20 de janeiro de 2012

Lições do Teatro ou Nudez Teatral ou O Despir de Mim

Esteticamente,
você pode dizer que não sabe fazer um poema.

Politicamente,
você pode dizer que não sabe o que é o amor.

Honestamente,
você pode dizer que a vida não vale a pena.

Socialmente,
diria que as coisas não estão com seu devido valor.

Economicamente,
pode dizer que o mundo já não tem mais cor.

Publicamente,
pode dizer que esse texto já acabou.
Está sem rima, sem nexo, sem rima, sem ne-xo, se m r ima, se m ne
xo.

Mude, emudeça, transpareça... Aja mesmo parado dançando dentro de você!
Encontre a verdade, fale a verdade, acredite no que diz.
Faça um poema...

Esteticamente,
você pode dizer que não sabe o que é o amor.
Politicamente,
pode dizer que o mundo já não tem mais cor.
Honestamente,
você pode dizer que não sabe fazer um poema.
Socialmente,
você pode dizer que a vida não vale a pena.
Economicamente,
pode dizer que esse texto já acabou.
Publicamente,
diria que as coisas não estão com seu devido valor.

A Fé move montanhas,
a fé move palavras, a Fé é uma escada.
A fé é um dom, uma dádiva, um thom de cores coloridas.

19 de janeiro de 2012

As Estações de Ninar

(Sobre os desencontros do Eu e o Lírico)

I

No verão, o vento.
No outono, o vento.
No inverno, o vento.
Na primavera, o vento.
E pelo vento, seu possível cheiro.

II

Sabe quando o sol arde?
Quando ele brilha tanto que mescla as letras dos livros?
Sabe quando o céu estoura numa fotografia?
Eu me sinto isso.
- O Sol?
Não. As ardências, as letras e o céu cruelmentes iluminados por você, um astro distante.

III

Hoje, estou triste.
- Triste?
É. Mais uma vez descobri que você não existe.

IV

- Ainda está triste?
Um pouco.
Só não estou habituado a olhar uma árvore tão linda como você;
imaginá-la serenamente florida,
e mais tarde, descobrí-la mirage.

V

Por que você não existe dentro de mim e só dentro de mim?
Pra quê insiste em existir fora?

VI

- Eu não sou o seu problema. Sou a sua solução, sou sua musa!
Não, você é os meus soluços.

VII

- Sou a sua solução e seus soluços.

16 de janeiro de 2012

(500) Dias com Ela

Ainda não sei analisar um filme, talvez por isso tenha ficado com inveja da resenha crítica de um amigo meu (Uriel Bezerra) sobre o filme que tentarei analisar. Qualquer dia desses paro para criar uma modelo de análise. É que ele aborda o filme de maneira magistral, passeando por conceitos abstratos e concretos com aplicabilidades práticas. Com êxito, fala do sumo da história, do núcleo. Não tentarei imitá-lo, mas com desejo de não desmerecê-lo(ainda que ele e conhecidos nunca venham a ler isso), acabarei por (ex)-citá-lo em algum momento deste texto. Vale dizer que o veículo da informação é diferente, enquanto ele usou uma revista eletrônica acadêmica, eu, um blog repleto de objetividade subjetiva. Vamos ao que interessa!



O filme começa com uma dedicatória clássica do cinema, aquela que diz "qualquer semelhança é mera coincidência", e completa com uma mensagem provocadora: "principalmente para você,..., vagabunda!". Eis que temos na abertura, uma linguagem fluída, desenhos singelos, músicas ternas : uma comédia romântica, como diz o Bezerra, um pouco distante do habitual público do gênero cinematográfico, as garotas. O nome 500 Dias com Ela é mentiroso em aparência e sincero em profundidade; quem o compro, o aluga ou simplesmente o nota, jura que é a história de um rapaz que convive 500 dias com a mulher amada, e mais, caso leia a sinopse, ele tenta entender o que deu errado no relacionamento durante todo esse tempo. Agora, vamos desvelar o velado. Tom, o herói moderno, conta a partir do dia que a conhece e não estará com ela o tempo todo. Isso porque a vida separa-os, mas deixa a lembrança dos olhos, dos joelhos e da pintinha em formato de coração entre os seios de Summer, a nossa quase-heroína.

Desenvolvendo uma temática complexa, os relacionamentos humanos, o filme questiona a existência do amor, a influência do acaso e o caráter da coincidência e seu parente próximo, o destino. Talvez, por pretender-se tão abstrato, soe filosófico. E o é. Não consigo observar um tom despretensioso por parte do filme, sempre trabalhando por conceito-imagens e até chegando em museus de arte contemporânea, questiona a própria função da arte. Uma produção cinematográfica digna da Nouvelle Vague, apta aos temas de Woody Allen e dinâmica como a narrativa de um Tarantino.



De um jeito muito melancólico, a história encaminha-se para o Não. A gente ainda acredita, ou melhor, deixa-se iludir pela brincadeira do ir e vir dos dias remotos. O filme, o diretor e o roteirista tal qual a vida, implacável, confirmam o que desde o começo era esperado. Duas pessoas tão diferentes podem dar certo? Ela que tinha tudo para acreditar no amor (a saber: boa educação, família estruturada, boas notas, boa sociabilidade com amigos e parentes) sucumbe a realidade esmagadora da animalidade humana. Ele que tinha tudo para ser um drogado, viciado (a saber: preferência pelas músicas tristes britânicas, anti-sociabilidade, incapacidade de lidar com mulheres) é direcionado a plenitude da condição do ser humano enquanto ser CONSCIENTE DA SUA ETERNA FINITUDE.

E o amor, em meio a sociedade cibernética, velox e instântanea resistirá às tentações de experimentações? Será que o amor como conhecemos hoje sempre foi o amor? Será que fidelidade é segredo, o motor, a engrenagem principal de uma relação? Sobre essa última pergunta, respondo: não. Tal qual dois filmes asistido por meus olhos, Cenas de um Casamento, do Ingmar Bergman, e Peter e Vandy, do Jay DiPietro, esse último com uma narrativa também não-linear, percebo-me em total estado de epifania: o amor precisa ser comunicado. E bem clichê seria eu lembrar da Julia Roberts falando, em entrevista ao programa Fantástico da Rede Globo, sobre Comer, Rezar, Amar, que toda relação precisa de diálogo.




Numa mesa de bar, o amigo bêbado, ela com alguma dose de álcool e ele um pouquinho fora de si, conversam:

- Eu não acredito no amor, é uma fantasia! - Ela diz sorrindo.

- Eu estou falando de amor, não de Papai Noel.

Ela contra-argumentará e ele ficará abalado com tamanha credulidade naquelas palavras indesejadamente proféticas.



Quando eu assistir novamente, farei um mais novo texto. Como a vida e como a obra de arte que precisam constantemente de um mais novo olhar.

13 de janeiro de 2012

Sentimental Capitalista

Um telescópio comprarei
para enxergar a dança do teu olhar.
Comprarei um microscópio
para entender o que me fez te amar.
Comprarei uma lupa
para olhar a tua unha a pintar.
E mesmo assim,
assim mesmo,
não a mim explicarei
o milagre que é ti.

7 de janeiro de 2012

Caetanos: Soldado e Artista




Nascido com orgulho em Santo Amaro da Purificação, filho de uma das mães mais famosas do Brasil, D. Canô, Caetano Veloso sempre tendeu para polêmicas. Hoje em dia, ele anda mais comportadozinho se comparado(sem fazer desmerecimentos) ao ele de uns tempos atrás. Falaremos das Postura Ideológica e Produção Artística do ser autolaboratório.

Uns tempos atrás, Caetano participava do movimento mais indentitário da cultura brasileira. Dando continuidade, apesar de tardia em gerações, ao Manifesto Antropofágico, protagonizou, ao lado de Gal Costa, Tom Zé, Nara Leão e Gilberto Gil, a Tropicália. Questão: Já existia Ney Matogrosso antes dos novos baianos? Não, ele é um dos influenciados direta ou indiretamente, uma vez que o mivimento baiano já estava acontecendo desde 1967 e ele, Ney, surgiu na mídia no final dos anos 70. Ainda como influenciados, temos o pernambucano Chico Science que bolou o Manguebeat.



Com tudo isso, percebemos o quanto da postura social do Caetano de 1968, ano clássico da juventude, mistificou-o e alçou-o à categoria de inspiração. Por causa do cabelo desgrenhado? Por causa da rebeldia política tendendo ao anarquismo? Por causa da necessidade cultura de uma novidade nacional que confrontasse com ímpeto a massividade do pop e rock internacional(principalmente norte-americano), sobretudo. Ainda que tenha sido vaiado, recebido "tomates" ao cantar "É Proibido Proibir", Caetano foi alastrando o seu sonzinho cadenciado, esse que segundo ele não era uma ramificação da Bossa Nova, embora assumisse ser fã do João Gilberto, a saber:

"Diferentemente da Bossa Nova, que introduziu uma forma original de compor e interpretar, a Tropicália não pretendia sintetizar um estilo musical, mas sim instaurar uma nova atitude: sua intervenção na cena cultural do país foi, antes de tudo, crítica".
http://cliquemusic.uol.com.br/generos/ver/tropicalismo

Antes de ser músico, Caetano foi militante. Como é díficil encontrar artistas assim(próximo da minha realidade juazeiro-petrolinense só consigo enxergar um compormetimento da atriz-diretora-escritora Cátia Cardoso e do ator Rafael Moraes, aquela que se diz não acreditar na política, mas é compormetida ao bem estar social, este que cobra ações da prefeitura de sua cidade).

Quem quer conhecer mais Caetano Veloso, pode procurar o documentário Coração Vagabundo que flagra Caetano despido(literalmente). Ele fala do tempo, que o fez bem, fala da religiosidade, que condena por tantos obscurantismos e manipulações, fala dos críticos, fala da música brasileira e americana.



E só mais uma curisidade: além de Ney Matogrosso, ELE* foi a inspiração para Cazuza.





Ele canta:

Onde queres revólver, sou coqueiro
E onde queres dinheiro, sou paixão
Onde queres descanso, sou desejo
E onde sou só desejo, queres não
E onde não queres nada, nada falta
E onde voas bem alto, eu sou o chão
E onde pisas o chão, minha alma salta
E ganha liberdade na amplidão

Onde queres família, sou maluco
E onde queres romântico, burguês
Onde queres Leblon, sou Pernambuco
E onde queres eunuco, garanhão
Onde queres o sim e o não, talvez
E onde vês, eu não vislumbro razão
Onde o queres o lobo, eu sou o irmão
E onde queres cowboy, eu sou chinês

Ah! Bruta flor do querer
Ah! Bruta flor, bruta flor

Onde queres o ato, eu sou o espírito
E onde queres ternura, eu sou tesão
Onde queres o livre, decassílabo
E onde buscas o anjo, sou mulher
Onde queres prazer, sou o que dói
E onde queres tortura, mansidão
Onde queres um lar, revolução
E onde queres bandido, sou herói

Eu queria querer-te amar o amor
Construir-nos dulcíssima prisão
Encontrar a mais justa adequação
Tudo métrica e rima e nunca dor
Mas a vida é real e é de viés
E vê só que cilada o amor me armou
Eu te quero (e não queres) como sou
Não te quero (e não queres) como és

Ah! Bruta flor do querer
Ah! Bruta flor, bruta flor

Onde queres comício, flipper-vídeo
E onde queres romance, rock?n roll
Onde queres a lua, eu sou o sol
E onde a pura natura, o inseticídio
Onde queres mistério, eu sou a luz
E onde queres um canto, o mundo inteiro
Onde queres quaresma, fevereiro
E onde queres coqueiro, eu sou obus

O quereres e o estares sempre a fim
Do que em mim é em mim tão desigual
Faz-me querer-te bem, querer-te mal
Bem a ti, mal ao quereres assim
Infinitivamente pessoal
E eu querendo querer-te sem ter fim
E, querendo-te, aprender o total
Do querer que há, e do que não há em mim

3 de janeiro de 2012

O Mágico e a Ilusão



Muitos hão de concordar comigo: há uma eterna dúvida sobre o caráter dos mágicos; um sentimento paradoxal de amar odiando. Isso porque gostamos de nos encantarmos pela delicadeza de seus gestos sobrenaturais e desenvolvemos uma coriosidade doentia para saber a verdade, isto é, o segredo. Queremos saber, mas se soubermos perderemos o estado de maravilhamento diante da mágica e passaremos a enxergá-la de modo demasiado técnico. O Surrealismo, a psicanálise freudiana e o realismo mágico, fantástico ou maravilhoso são juntamente do filme Meia Noite em Paris um arsenal de cartolas coloridas.

Agora, vamos embasar este texto à luz de outro texto:

"O que é mágica? Ilusionismo? Mágica e ilusionismo é a arte de tornar o irreal em real diante do espectador. Em latim temos dois vocábulos que dão origem a uma definição simples, a prestidigitação: arte de prestidigitador (presti = rápido, digiti = dedos) O mágico/ilusionista usa de sua habilidade e rapidez com as mãos para transformar e encantar".
(http://magicotom.blogspot.com/2007/06/o-que-mgica-ilusionismo.html)

E:

"A origem da palavra “mágica” vem do grego e derivado do latim que no original diz magiké e quer dizer peça de teatro com transformações fantásticas ou deslumbramento e fascinação. A palavra também traz a interpretação da palavra ilusionismo que é considerada uma arte por se tratar de habilidades das mãos".
(http://www.palavramagica.org/index.php/o-que-e-magica.html)

Imagine, permita-se imaginar envolvido por uma realidade que você sempre quis. Digamos que você se identifique com uma época remota, com um país que não é a sua pátria, com pessoas que não coexistem no mesmo espaço-tempo. É isso que acontece com o personagem do Owen Wilson (Gil, que graças ao talento do ator é um alterego mais bem desenhado que já vi do Woody Allen, desde o filme Poucas e Boas com a performance do Sean Penn, Owen consegue lembrar os olhares, trejeitos, tiques do meu ator-diretor numa fase jovem).



Um roteirista de cinema que é apaixonado por Paris sob chuva, bem diferente da mulher dele; enquanto um ver o passado em bares e restaurantes frequentados por fantasmas eruditos, outro, observa a beleza dos monumentos e do que é realidade imediata. Salvador Dali, Luis Buñuel, Ernest Hemingway, William Faulkner, apesar de caricatos, são apresentados com espontaneidade e desmistificados como Deuses. Momento sublime é quando o Gil sugere um enredo para um dos filmes que o Buñuel realizará mais tarde (um casal está jantando com amigos e de repente sentem-se presos, não conseguem passar da linha da porta da sala de jantar) e o próprio Buñuel questiona o motivo pelo qual os personagens não conseguem ultrapassar(situação que pode ser lida sob perspectiva do criador que desconhece a razão da criatura artística).

Com Meia Noite em Paris, você pode apreender a consciência de que existe um momento no dia em que todos os astros conspiram ao seu favor. Uma hora mágica na qual o sonho é tão real que ultrapassa a inexorabilidade da relação espaço-tempo.



Por Meia Noite em Paris, você pode relaxar suas retinas tão fatigadas. Você pode pensar que o Woody Allen ganhou uma bolada de grana para fazer o merchandising da cidade-luz. Mas, se você tiver um pingo de referência europeia, uma gota de sensibilidade literária, farpas musicais francesas e uma queda por comédias românticas aversas aos filmes de explosivos e carnificina americanos; bem, você vai querer morar em Paris.

Anda, acorda! Deixa Paris viver em Você. Faz essa mágica, permita-se iludir uma hora da vida. Brinca tal qual brincava quando era criança; brinca de ser rico, brinca de ser pobre, brinca de ser bandido, brinca de ser polícia. A vida, a vida anda apresentando-se para mim como uma grande aula de teatro.



Anda, acorda! Deixa Paris viver em Você.