28 de novembro de 2011

Uma Poesia



Solta-se do verbo os vermes reais,
entoam um canto multicor.

Transforma-se o vento em neblina marrom,
ensaia uma dúvida turva.

Poeira, poeira,
areia, areia, tudo é nada.

Lá está o menino na caixa,
calado pelo silêncio fúnebre.

Eis a terra que aterra,
eis as pedras que apedrejam.

E eis o tempo que finda
e eis a fenda que fecha.

24 de novembro de 2011

.Quanto ao Futuro.



(Texto escrito em Maio de 2011, transferido [pela relevância exegética] do meu outro blog "Asneiras do Vento")


Sim, tinha certeza do que estava fazendo ao matricular-me na disciplina de Literatura Brasileira IV, EU QUIS ADIANTAR DISCIPLINA. Estou matriculado em Literatura Brasileira I e Literatura Brasileira IV. O fim e o começo. Sabia que tinha um encontro marcado com Clarice Lispector, não imaginava que ela seria tão gentil em me aparecer da forma gomo gostaria que ela fosse: rápida, dinâmica, sensível e cruel. Ela veio vestida de "Rodrigo S.M.".

A Hora da Estrela é um livro que não poderia deixar de ler, voltaria das profundezas da terra dos mortos (dito cemitério) para folhear as páginas por intermédio de Brás Cubas, aliás eis aí um espírito recorrente na leitura da história de Macabéa. O Narrador é caústico e consegue ser o que ele não queria que aparentasse ser, piegas, como toda escritora feminina, ironia crítica de Clarice aos que a definem do tipo.

Mas ela (a dona do livro) estava lá. Como não notar aquelas frases não concluídas, aqueles paradoxos tão enigmáticos, aquele obscurantismo sensual da palavra além de si? Como não notar a sorrateira intimidade que nos envolve com tão instiganete linguagem, ainda que pretendida ser simples.

E quanto aos fatos? Os fatos são duros tal qual pedras. E quanto as pedras? As pedras são feitas do que quer o poeta. Drummond canta a do caminho, Daví atira em Golias, o homem descobre a roda, o escultor modela o homem. Rodrigo que fizeste com a pedra senão atirar contra o teu e nossos próprios egos?

Lendo a história de Macabéa e tomando notas dos pensamentos percebidos por Rodrigo, lembrei de uma amiga. Uma amiga que não me ler por aqui, até onde sei, me ler pessoalmente, olho no olho, lábios alinhados e pensamentos transparentes, só não sei se ela pode dizer ser eu amigo dela. Macabéa parece com você que não me ler por aqui (plim, plim). Você que se alimenta mal, gosta de refrigerante e diz não saber de nada a um raio de mil metros a sua volta.

Eu, tal como Rodrigo S. M. por Macabéa, amo minha amiga. Cuidaria dela com todo amor e cuidado, mas prefiro deixá-la distante ao cuidado do meu olhar. De fato, somos distantes.

Se vós continuais a me ler, sabeis: o desfecho da festa é a morte, a hora da menina feia ser Marylin Monroe.

Senhor, quantas meninas não sofrem complexadas por não terem o brilho das meninas aprisionadas na tela de uma caixa mágica? Minha mãe deve ter sofrido muito com minha bisavó. Presa, limpando chão, perdendo a sua infância e sua adolescência para agora, aos quarenta e poucos anos, sorrir o sorriso que perdeu no balde de cera e água. Céus! Que mundo injusto! Sejamos recompensados por tanta tristeza e infelicidade.

Deus, devemos ter piedade de ti?!

Por quanto tempo estaremos em tempo de Morangos?! Para mim, que mal sei o que é tempo de Morangos, se sei bem, fingirei sonsidão.

Por quanto tempo ficarei com olhos anuviados de egocentrismo?! Deus! Enquanto reclamo da mosca que caiu em minha sopa, um outro agradece ao vento por ter um pão pisado pelos pés de pessoas tão apressadas na grande metrópole! Deus. Mal sabia eu que a descarga do banheiro é um luxo, que a água encanada é uma dádiva!

Merecemos mais, e mais, e mais. Todos merecemos, as cotas dos negros é insuficiente ao passado. Eu também o sou.

José Saramago diz que quanto mais palavras conhecemos, mais podemos expressar com vivacidade o que sentimos.

Sentir nada.Pensar nada. Viver nada. Saudade do futuro. Saudade de ter futuro. E quando se tem, se tem uma Mercedes Benz em sua direção. Eo futuro? Quanto ao futuro?

Abre teus olhos, reestabeleça a vida interior.

Diga-me que abrirá os teus olhos.
Diga-me que abrirá os teus olhos.
Diga-me que abrirá os teus olhos.

“Rezem por ela e que
todos interrompam o que estão fazendo para soprar-lhe vida, pois
Macabéa está por enquanto solta no acaso como a porta balançando
ao vento no infinito. Eu poderia resolver pelo caminho mais fácil,
matar a menina-infante, mas quero o pior: a vida. Os que me lerem,
assim, levem um soco no estômago para ver se é bom. A vida é um
soco no estômago.”
A Hora da Estrela, Clarice Lispector

Sim, eu admito de cabeça baixa e com olhar de homem que soluça, eu já escrevi coisas que Clarice já escreveu. Eu não a conhecia. Nossos pensamentos se parecem, e eu não gosto muito de saber disso. Porque talvez eu nunca goste da intimidade que ela propõe,

Sim.

19 de novembro de 2011

Sentimentos Vegetativos



Mais um livro de memórias do que um livro de ficção. Mais um registro de psicologia social do que romance regional. É um livro que não aceita rótulos com facilidade. É um livro que recebe o leitor com um aconchego infantil, com palavras repleta de ternura e travessura.

O persongem principal chama-se Zezé, menino de cinco anos que jura ter seis para ser aceito no colégio público. De família sem privilégios, sedentos de alimentos e arte, ele desenvolve uma sensibilidade sem igual para as coisas. Muito devido aos ensinamentos do seu Tio Edmundo, que fala sobre a sociedade e as outras causas do mundo. Aliás, o senhor Edmundo é a fonte primeira da sabedoria precoce do menininho. O confidente primeiro foi o pequenino Pé de Laranja Lima que servia como um psicólogo; só a arvorezinha sabia os sofrimentos do menino, mas também dos sonhos de ser um astro daqueles do filme do velho oeste.

- Por que as pessoas dizem que o meu padrinho é o Diabo?

Diziam isso para ele. Não por acaso, ele fazia jus a isso. Como assim, Diêgo(quem esceve), você está defendendo os parentes de uma criança que o define como afilhado do Diabo?! Não, não é isso. É que o Zezé inventava situações travessas. Uma vez, não por maldade, arranjou uma meia na estrada e pensou que daria uma ótima cobra; e a fez com talento e rigor, a ponto de assustar uma mulher, que por infelicidade dele, estava grávida. Ainda bem que ela não "perdeu" a criança. Imagino o rumo da história ir para outro caminho. Ele ficaria traumatizado, não conheceria o seu grande amigo, o velho Portuga, abandonaria o Miguinho ainda ainda mais cedo e se fecharia para o mundo de maneira mais entecipada e amargurada. Mas nada disso aconteceu.

Zezé pendurou-se no carro de Manuel Valadares, que não o perdoou da façanha do menino. Deu umas palmadas nele, assim tornou-se o pior inimigo do menino, despertando uma emoção nele, o ódio. Mas que... como o mundo gira, dá voltas... a narrativa também tece situações que caminham rumo à contradição, às peripécias, às desmedidas, graças a Deus e aos demiurgos!

Com efeito, Manuel Valadares recebeu a alcunha de Seu Portuga. Do ódio ao inimigo nasceu o amor supremo ao mais novo amigo. E do amor supremo nasceu o mais doloroso ato de perder, de deicar ir. Um trágico acontecimento faz com que o leitor fique em estado de transe. Uns podem verter lágrimas sobre as páginas, outros, tais como eu, podem deixar na represa dos sentimentos uma sensação que, de fato, é um nó na garganta.

Ainda é tempo, é sempre tempo. De pedaço em pedaço é que se faz ternura. E como já diz a Xuxa, não bata (nem com palavras nem com olhar), eduque! E para isso, é preciso saber o que é Educação.

17 de novembro de 2011

Eu: Quixote e Casmurro




As pessoas olham assim para o Diêgo ou Johnatan, com um olhar de compaixão, afeto, desprezo (às vezes). Eu gosto disso. Gosto de me sentir protegido tal qual me sinto ao embrulhar-me com o lençol da cabeça aos pés, sinto-me envolto do útero da minha mãe. Um proteção sem igual, distante da filosofia e das linguísticas, assim, distante dos perigosos abismos pen(s)áveis.

Percebo o meu caráter viajante, vacilante, distante. Alguns amigos reconhecem o meu ar filosófico (aqui no sentido mais perjorativo ou esteriotipado) possível: com a cabeça no mundo da lua. Gostaria de dizer que não sinto o menor prazer em estar no mundo da lua, em verdade, vos digo: nunca estive. Conheço Macondo, lá sim, sou amigo do rei Márquez. Se você ler isso, pensará: nossa, ele tem um sentido de vida!

Não tenho.

Nem mesmo minha avó constitui uma razão existencial a minha vida. Nunca tentei morrer, mas já cogitei a possibilidade. O meu problema é justamente o problema da Lane no filme Setembro, sempre tentei Viver. Busco sentidos, busco a construção de um sentido para as coisas na minha vida; apesar de já ter perdido a ânsia de conseguir o mais rápido possível. Quem me enxerga não é difícil de perceber a minha condição de arrastar-se pelo mundo, como retirando uma força do nada. Nesse sentido, transpareço a mais profunda angústia machadiana.

Não fui sempre assim.

Já tive minha Capitu e o meu Sancho Pança, perdi-os por puro descuido. Eis aí uma característica deste personagem redondo que vos fala: DESCUIDADO, DISTRAÍDO E INGÊNUO. Mas de uma ingenuidade que assemelha-se a mais impura ignorância.

Se consigo perceber o momento exato da mudança de comportamento? Consigo. Ler Nietzsche foi um profundo equívoco.

Quixote, quando encontrei o Rei Márquez em Macondo e fiquei envolvido com ar fantástico das coisas ao meu redor.

Quero escrever isso não como uma declaração e um atestado de continuidade. Quero escrever para saber que fui um sujeito histórico.

Uma das coisas que mais me revela:
O meu ponto de vista sobre o céu;
antes, um lugar sagrado, vasto, infinito, pleno;
agora, o mesmo lugar vasto com a imprevisibilidade da grande destruição.

Hoje, identifico-me com um equilibrista que a qualquer momento pode desabar, tais quais minhas metáforas preferidas: castelo de areia, corda bamba e folhas secas. Eu sou tão vasto,

14 de novembro de 2011

Setembro




Um espaço apenas, limitado e vital. Um tempo inferior a três dias. Chegadas e despedidas constantes. Vários solilóquios. Muitas quebras de perspectivas.

Na primeira vez em que o filme foi gravado, Woody Allen não se agradou com o resultado e decidiu cancelar o contrato com metade do elenco, bem como reescrever algumas coisas. Mia Farrow está no elenco, permanece e faz o personagem principal, Lane (um quase alterego, senão o próprio, do diretor). Isso por causa da fragilidade, timidez e na grave inaptidão social com seus aspectos filosóficos. No entanto, há uma CAUSA para o comportamento singular da protagonista, algo que não confere a realidade do diretor/roteirista, o qual não falarei agora.

Com uma música de Jazz, uma casa bem arrumadinha e com predominante com âmbar. Um lustre muito bem polido e perfeito é sustentado pelo teto. Há cadeiras e sofás, há muitos objetos, é um ambiente bastante preenchido. É um dia comum. Pessoas sentadas no sofá conversam em outro idioma. De repente, Lane entra ofegante queixando-se do comportamente da mãe (primeiro indício da tensão entre elas).

Sabemos que haverá uma festa. (...)É noite. Músicas clássicas, piano, drink. Chuva. Raios. Trovoadas. Uma tempestade lá fora, total tranquilidade cá dentro. O namorado veranista de Lane começa a olhar diferente para a melhor amiga de sua namorada.

(...)

É uma realização bastante poética. Há de se creditar a tempestade (física) que dá ritmo a sucessão dos eventos que derrocam para uma grande situação, mas também a queda de energia elétrica e utilização de velas, é mágico observar o acontecimento num filme. Há de se observar e reobservar os diálogos e as perspectivas profissionais influindo na perspectiva pessoal perante as escolhas da vida. A exemplo disso:

Numa mesa de sinuca, joga um profissional do campo das Ciências da Natureza contra um, das Ciências Humanas. Um professor de Física contra um Escritor em busca de inspiração. O diálogo é essencialmente, e interferencialmente esse:

- Qual a bomba atômica está produzindo atualmente?

- Escolhi um campo mais aterrador do que isso.

- O que seria mais aterrador que a destruição do mundo!?

- A consciência do absurdo da existência. O mundo é feito dos acasos cósmicos, é moralmene neutro e inimaginavelmente violento. O universo surgiu do nada e ao nada voltará. As leis físicas são insuficientes quando aplicadas a um campo ou a vastidão que é o universo.

Pobre escritor e pobres professores de Literatura que pensam dominar integralmente o dom da interpretação e suas estéticas da recepção. Um sujeito totalmente impregnado de racionalidade manifesta um pensamento avassaladoramente poético, por isso transcendente. Esses são personagens Allenianos, a qualquer instante pode nos surpreender tamanha a potencialidade reprimida no seu mais recôndito mistério interior.

Queria falar mais sobre o filme. Mas deixo para falar mais por aqui... assim, aos poucos, tal qual os filmes dramáticos do meu imprescindível Woody,

12 de novembro de 2011

Receita de Torta Salgada

Antes, você precisa de um dinheirinho. Caminhe até a venda mais próxima, no caminho você pode ir pensando: Será a torta mais deliciosa que eu jamais fiz. E vá caminhando, e vá lembrando dos ingredientes:

500g da alva Farinha de Trigo com fermento formidável

01 xícara com Óleo que tradicionalmente tenta encontrar-se com água que tanto lhe é semelhante

01 xícara com a alva Maisena prima da Farinha de Trigo

01 pacotinho de Queijo Ralado pelas máquinas de poesia automática

02 pitadas (da junção do dedo indicador com o dedo polegar com Sal)

04 xícaras com o leite mágico do crescimento das crianças

04 ovos das galinhas clariceanas


Despeje cuidadosamente o leite no liquidificador, perceba que ele cairá num maciez infinita tal como um pano de alta seda. Em seguida, derrame a Farinha de Trigo, ela ganhará um aspecto amarelecido quando entrar em contato com o leite. Quebre a proteção branca da gema e sua clara, despeje-as. Certamente, na timidez de serem vistas despidas da casca, ambas, a gema e a clara partirão para a profundidade do recipiente.

Observe a mistura de cores claras: amarelo e branco.

Misture todos os outros igredientes. É uma festa, é uma celebração.

Ligue o liquidificador.

Observe o que o tempo e a natureza da velocidade faz com as coisas. Desligue.

Você já tivera que untar a forma. Em causa disso, tivera mais ainda que imaginar o corpo da pessoa amada sendo untada de manteiga e afeto sublime.

E o líquido pastoso cairá e assumirá uma forma da forma que você escolheu. Leve ao forno. Espere o ponteiro dos minutos percorrer um espaço no relógio equivalente a mais ou menos 180º. Temperatura de 90º.

Enquanto a torta salgada está sendo feita, sugiro que leia algum capítulo do livro de Eclesiastes.

Bom apetite!

1 de novembro de 2011

Man on a Tightrope, Philip Long

E se você se apaixonar perdidamente, sem pensar no futuro. Apaixonar-se loucamente, assim sem mais nem menos. Não existe mais paixão hoje em dia? Pode ser, mas pode ser também que não exista paixão nos olhos de quem enxerga e julga não haver. Mas, agora, vamos tentar enxergar isso num ser apaixonado.

"Oh Senhor,
Eu estou cansado.
Eu sou um homem em chamas.
Eu ainda a mantenho em minha mente
Então eu não sei bem porquê"


"O coração tem razões que a própria razão desconhece". É disso que tento falar, o homem da situação é totalmente passional. Está à deriva. E o lindo nos personagens planos, àqueles que pouco demonstram capacidade de alterar o seu destino, àqueles vulneráveis demais, é exatamente a profundidade esmagadora do universo sensível criado dentro deles.


"Bem, meu coração foi roubado
Por uma garota vestida como uma santa.
Oh, ela não tem nome.
Mas é viciante como cocaína"


O coração ser roubado, vamos tentar imaginar isso. É possível notar a violência e sujeira das palavras "cocaína, roubado, viciante" se comparadas as palavras tão "castas" que vinham sendo ditas. Nosso personagem apresenta-se consciente do que aconteceu, mas não entende como permitiu que isso acontecesse, ou melhor, como isso aconteceu. Nesse momento aparecem certezas e incertezas sobre quem é a mulher. Seria uma santa na aparência ou na essência? Se é santa por qual motivo é viciante, sendo o vício um pecado?! Por ainda não ter nome, é sugerido uma pouca falta de intimidade com a mulher. Poderíamos estar diante de um Pierrot totalmente fantasioso em relação aos sentimentos da amada.

"Eu sou um homem em uma corda bamba
Eu sou um homem em uma corda bamba
Eu sou um homem"


O que me inquieta é saber o que está abaixo da corda. Seria o abismo que Nietzsche um dia mencionou? O que sustenta de um lado e do outro a corda esticada? E com que forças nosso personagem consegue está ali? Será que a paixão é um misto de riscos e comedimento? Será que tudo ganha proporções maiores, como o balançar de uma mão e um virar de rosto?

"Oh, Senhor,
Se eu cair de joelhos
Oferecendo-lhe alguns elogios,
Você poderia aliviar meus medos?
Ou a minha miséria?"


Deveríamos ter falado sobre a primeira palavra da música, o vocativo "Oh, Senhor". Mas agora que a oração (e a palavra é exatamente essa, a música toda é uma oração a um ser divino que confude-se com uma conversa de amigo para amigo. Para mim, este trecho é um dos mais lindos. Toda a fragilidade do ser humano é exposta. O personagem plano (o qual deveria ter definido de eu-lírico) começa a falar sobre sua condição de ser, eu penso em pranto, só consigo imaginar esse trecho aos prantos.

Os versos "Se eu cair de joelhos / Oferecendo-lhe alguns elogios" pode sugerir uma pessoa que tenta negociar com Deus, dessa forma, percebemos que o nosso eu-lírico era, e pode continuar sendo em grau menor, um ser racional. A razão que se percebe em total estado de miséria.

"Você sabe, meu coração foi roubado
Por uma garota vestida como uma santa.
Oh, ela não é minha amiga
Mas continua pulsando em minhas veias"


De fato, não há um vínculo muito forte entre o sujeito e o "objeto de desejo". Nosso Pierrot está profundamente encantado por uma pessoa que acabara de conhecer, entenda a palavra conhecer como "Espantar-se, Desvendar, Enxergar com olhos, nariz e toque".

Mas o tato talvez se sobressai nessa parte da canção. O pulsar na veia retoma a cocaína e o estado de tensão no qual se encontra o homem.

Eu sou um homem em uma corda bamba.
Eu sou um homem em uma corda bamba.
Eu sou um homem.


A canção caminha para o encerramento, enquanto o homem caminha para um lugar onde não sabemos o que o espera. A condição dele está no máximo cuidado em continuar na corda bamba, uma vez que Deus não o respondeu sobre a negociação.

"Eu sou um homem em uma corda bamba.
Eu sou um homem em uma corda bamba.
Eu sou um homem".


Chama-me a atenção o fato de terminar com a omissão da corda bamba, "Eu sou um homem". Nossa mente, pelo menos a minha mente completa o restante da frase. E nós na condição de ser homens, melhor, humanos, identificamo-nos com o eu-lírico por estar sujeito a qualquer coisa. Como dizem, para morrer (mas também amar, encantar-se, iludir-se, apaixonar-se, sofrer, perder, ganhar), basta está vivo.

Aconteceu em 24 de Fevereiro de 1996

"Prometo deixar um profundo vazio na tua vida, como você fez na minha, assim sem mais nem menos. Eu te amei, idolatrei, fantasiei, idealizei. Quis sorrir contigo, chorar contigo. Você ensinou-me o silêncio. Ensinou-me o respeito ao outro, ensinou-me a duvidar, a acreditar, a sentir com mãos, olhos, pés.

Prometo visitar-te, vezenquando. É a dinâmica da vida, entende? Eu preciso ir, preciso crescer na realidade.

Lembro daquela noite, daqueles filmes, daqueles risos, daquelas conversas. Lembro-me de tanta coisa que você pensa que esqueci..."

Felipe abandonou o lápis e o papel sobre a mesa. Correu para discar uns números no telefone.
....6

- É... quem fala?

- Caio.

- Caio, esse número é da Clarice?

- É.

- Posso falar com ela?

- Não.

Desligou. Rasgou a carta. Quebrou o lápis. Achou uma corda e se enforcou, assim sem mais nem menos (num belo dia banal).

Sonhei (de Verdade)

Sonhei que estava num caminho entre matas e matagais. Na companhia de pessoas que eu enxergava como amigos. Aos poucos, as pessoas me pareciam estranhas e eu alimentava um medo. Aos poucos, as pessoas queriam me agradar, me fazer sorrir. E de repente, eles tiraram uma corda de uma mochila ou algo parecido; de repente, vieram em miha direção. Eram homens que se pareciam comigo.