29 de dezembro de 2011

Em 2012,



Quero tocar muito bem a minha gaita.
Quero ler mais 07 livros de Shakespeare.
Quero mudar meu estilo sendo compatível com a moda Nouvelle Vague.
Quero dirigir carro.



Quero concluir o curso de Letras.
Quero conhecer você, minha menina.
Quero sentir o grande amor.



Quero estudar mais sobre Woody Allen(e comprar o livro do Eric Lax).
Quero estar trabalhando na Caixa Econômica.
Quero ler com mais entusiasmo os livros de Gabriel García Márquez.
Quero decidir a minha real relação do teatro.



Quero escrever um texto teatral.
Quero chorar lendo um livro.
Quero ter um animal de estimação.
Quero ter amigos verdadeiros demais.



Quero melhorar a relação com meu pai e minha mãe.
Quero fazer caminhadas com minha vó.
Quero ajudar nos estudos do meu irmão.



Quero escutar mais as músicas de Coldplay, Marisa Monte, Cat Stevens.
Quero ser fã do Jazz e do Blues.
Quero pensar socialmente, viver esteticamente, respirar tranquilamente, perceber minuciosamente.



Quero conjugar o verbo Consciente*.
Quero estar consciente do agora.
Quero fazer do passado Presente e do futuro, esboço.
Mas, não se engane:
Continuarei crítico, espontâneo, delicadamente delicado, delirante, misterioso... reservado.

28 de dezembro de 2011

Conversa com Mulher

Ela foi falando para mim que os homens se aproximavam dela por puro interesse sexual. Que ela não queria ser considerada objeto de desejo.

- Será que eles não entendem! Só quero pegar na mão, caminhar pela rua abraçadinhos, contar besteiras ao pé do ouvido. Não quero só sexo! Eu tenho minha mão para isso, e tenho três ajudas lá em casa. Três garotos. Então, eu resisto às tentações e fico investindo na amizade. Quando eles me maltratam, ainda no início, percebo que eles estavam com a velha expectativa dos mesmos homens que chegam até mim, a expectativa fácil de que tudo vai rolar!

- Irônica situação, eu disse, porque eu estive nesse impasse com minha ex-namorada. No meu caso, era a falta e não o excesso de sexo.

- É. É preciso complementar, melhor, suplementar! Mas todos eles são iguais.

- Não, não são. É preciso que você fale isso que você me falou para eles. Assim, pensarão a atitude animalesca e primitiva que seguem. Você sairá da condição de vaso no qual é colacada "flores" e passará para a condição de mulher que merece receber flores. Mas do que colocá-las num lugar qualquer. Eduque-os.

- Eu, educá-los.

- É. Talvez, você faça a diferença na mente de muitos homens. Você é linda, sensual e humana. Não deixe que nada predomine sobre a sua humanidade que já lhe é inerente. Digo, deixe que eles enxerguem isso em você. Caso queiram brincar de ser machões, brinque de ser a mulher-maravilha.

- Não sei.

- Ao menos tente me escutar e reflita sobre o que ouviu.

Com aqueles olhos que o Diabo lhe concedeu, o riso com que o tempo lhe deixou e o coração que Deus presenteou, ela foi e eu fui. Nós fomos, cada um para um lado, cada um com um pouco de cada do outro.

24 de dezembro de 2011

Morte in Vida (ou Lendo Pedro Páramo)




Da minha família, ao que me consta, já se foram: Marcelo, meu tio(assassinado), A irmã de minha vó paterna(leucemia), Janinha, minha prima(atropelada), Reinaldo, um tio de consideração(câncer de pulmão), Dona Chica, minha bisavó(falha múltipla dos órgãos, morreu a dormindo). Todos eles não existem mais, ou melhor, até existem na condição de fantasmas.

O conceito que sigo: Fantasmagórico é aquilo que é feito de ideia e tem caráter volátil. Aquele pensamento típico de um leitor que vai lendo e imaginando, e se perdendo, e vivendo, e se emocionando. Nunca tive uma experiência sobrenatural, nunca tive uma que valha a pena de toda a minha curta existência. Por isso, fantasmas são coisas que surgem dentro da gente e adquirem contornos surreais.

Juan Rulfo é o escritor latino americano de grande influência na obra do escritor mais admirado por mim: Gabriel García Márquez. Lendo a obra do primeiro, facilmente percebo referência buscadas nessa: Agosto, Canícula, Espaço-Tempo ínfimo, Personagens Doentis, Descrições Sinestésicas. E, arbitrariamente, julgo-me inapto para a leitura desses dois. Mas já me antecipo para mais tarde assustar-me da ingenuidade do leitor que sou hoje. De antemão, guardo algumas impressões do tempo, do espaço, do enredo, dos personagens, do estilo da narrativa do grande clássico mexicano contemporâneo: Pedro Páramo.

Escreverei mais por aqui. Pretendo ter a visão completa da leitura. Por enquanto, encontro-me no meio das singelas páginas.

Vislumbro personagens que aparecem e desaparecem. Indicam um caminho, contradizem os atos, lamentam. Murmuram demasiado. São mortos que falam com os vivos sobre o queixumes deixados quando feitos de nervos e sangues. São seres amargos que se queixam da indiferença e insensatez de um pai sempre distante: o próprio Pedro Páramo.

A exegese está só começando... investigar a morte em vida será o próprio trabalho de investigar o meu suicídio cotidiano.



Há no México, numa atemporalidade não distante, uma cidade chamada Comala. "Vim à Comala porque me disseram que aqui vivia o meu pai: um tal de Pedro Páramo", assim se inicia a saga de Juan Preciado o nosso narrador casual e personagem identitário(aquele com o qual nos sentimos mais próximo). Ele apresenta-se já na cidade e relembra motivo de estar ali. A mãe no leito da morte, segurando a mão do filho, implorou para que ele retorna-se à Comala dos sonhos dela e pedisse o que era deles por direito ao injusto marido que a abandonara. É por esse filho que honra o desejo e a promessa feita a mãe que vamos adentrando num universo de persongens guiadores do caminho para encontrar o pai. O problema é quando esses persongens contradizem o personagem anterior, ora dizendo que o outro está morto, ora dizendo que não sabia que o outro ainda estava vivo. É como um vilarejo de casas invisíveis uma as outras. Como um labirinto!

Aliás, eis uma das metáforas mais bem apropriadas ao estilo primitivo tanto de Juan Rulfo quanto dos estilos fantásticos. Uma narrativa que vai se construindo sorrateiramente, ergue muros, restringe espaço, às vezes, claustro: um labirinto, uma emaranhado, um monte de perspectiva, uma fragmentação do que é completamente complexo, o sobrenatural.

Encontramos pelo caminho Abundio(um viajante que diz dos aspectos geográficos dos montes da Media Luna e dos latifúndios de Pedro Páramo), Eduviges(uma senhora amiga de Dolores, mãe de Juan Preciado, nosso narrador casual, que escuta os queixumes dos mortos e é a primeira a revelar o aspecto metáfisico da obra, Fulgor Sedano(administrador das propiedades da família Páramo). Claro, os personagens seriam muito planos se apresentados somente pelas funções sociais desempenhadas no contexto da obra literária, porém, as atitudes desempenhadas por eles, frente às adversidades da economia/política do vilarejo, demonstram que são capazes de qualquer coisa para SOBREviver. Aliás, ah...os "aliás". Aliás, o verbo SOBREviver é uma palavra de comando para todos os personagens.

Eles enfrentam situações limites. Miguel Páramo, pai de Pedro, a não aceiação de sua morte acidental; Pedro Páramo ao perder, acidentalmente, o filho, Lucas Páramo, num tiroteio de casamento. Dolores ao indignar-se da situação miserável na qual ela e o filho(de um homem tão afortunado) encontravam-se. E os moradores da Comala esquecida, em suas casas despedaçadas, sem objetos, secas, zeradas. Por sinal, não lembro-me de nenhuma descrição de alimentação por parte dos personagens(só do momento em que promete-se caçar uma ovelha, na verdade, desculpa de um morador do vilarejo para abandonar a mulher).




Opressores e Oprimidos, Labirinto das Compreensões Comunicativas, História de Sobreviventes Colonizados, Questões de Poder, Manifesto à Vingança: tudo isso poderia ser título de um prólogo. Mas numa questão mais universal, ampla, abrangente, por isso, talvez, superficial, digo: Pedro Páramo mostra que existem pessoas que falam com os vivos, trabalham com os vivos, lembram-se dos vivos, mas já estão mortas. Mortas por dentro. Mortas por não terem sentido. Mortas por estarem vagando num mundo imagético, rápido, intenso. Mortas por estarem sendo vítima de uma política do biopoder, uma política que desumaniza, assujeita. É possível viver estando já morto em vida?

Eu poderia ser um desses espíritos orfãos de pai, que conversam com Juan Preciado. Diria-lhe: Juanzito, esquece teu pai e vai em busca de tua vida, já que tua história hereditária só te fará sofrer. Juan diria-me: quero ter consciência e saber porque sou quem sou e quem poderia ter sido. Diria-lhe: Então, vá! Vá, segue adiante por estes montes infinitos. Mas não deixe que lhe tirem essa ânsia pela verdade, pelo que é certo! Vá. Não deixe que esse monte de zumbi lhe pertube o juízo. Se for para escutar alguém, escuta tua mãe que está dentro de teus pensamentos. Até minhas palavras, messa!

Se eu fosse o próprio Juan Preciado, bem... não sei o que faria. Por isso, quem sabe você, leitor, saiba o que fazer. Eu estaria de mãos atadas, quase morto.

20 de dezembro de 2011

O Eterno e o Nada



Muitas vezes nos deparamos mediante palavras repletas de sentido, tão por isso: complexas demais. Na euforia dos segundos conduzidos pela desgraça irracional dos sentimentos instantâneos, elas tornam-se palavras-muletas, outrora palavras-amuletos. O sentido e a coplexidade ganham redução drástica.

Menciono aqui o Nada. Caro leitor, se queres continuar feliz e longe da angústia do pesar pensado, foge o quanto antes deste conceito; terás assim uma juventude deslumbrante, e uma velhice de instantes solitários inquietantes.

O Nada. Não estou fazendo nada, uma das frases mais ditas pela sociedade adepta das mais avançadas tecnologias. Fazer nada é nada fazer. Nada concretizar, nada esperar, nada amar, nada querer. É um estado de plenitude e indiferença, um estado ponte entre despenhadeiros. O nada. Nadar no mar do nada. Talvez, haja aí uma ilha da verdade absoluta. A verdade absoluta cercada pelo mar do nada. Quando falares nada, lembre-se de "coisa alguma, zero, indiferença, entorpecimento".

Se Deus criou o homem, quem criou Deus? Deus é eterno. Eternidade é a qualidade daquilo que não tem começo. Penso vezenquando que a eternidade não é similar de infinito. Penso que há coisas eternas e finitas, simultaneamente. Hoje, eterno é algo que não tem fim: "Amor eterno, saudades eternas, dores eternas". Mas tudo isso reveste-se melhor por "Infinitos", uma utopia humana.

O nada é eterno. Eterno e infinito, a única coisa que consegue ser infinita aos meus olhos. O nada que perpassa todo o mistério da existência humana. O nada que vai alagando qualquer existência de ser. O nada que vai alagando as memórias, a pele. O nada pulverizador. O nada aspirador de pó. O nada. O

Uma D(i)(e)scrição

9h. Numa noite, um grupo de amigos andavam pela cidade, compravam vinhos e salgados. Caminharam em direção ao cais, objetivando um lugar para tentar parar o tempo.

Sentados. Um descobriu o toque de outro. Uns dedos na caluna que foram envolvendo ombro, nuca. Estendido o braço restou a redenção. Por isso, os outros na condição de outros não sei o que fizeram. Unifocal, descrevo os sentimentos/estados/sensações que me são comuns.

Peles que estavam intimamente ligando-se, sorrateiramente se mostram mais que juntas a olhos vistos de qualquer um. Pudor? O mínimo. 0h. Ali está ele com o outro ele que se abraçam pela metade e parecem encontrarem-se por inteiros.

Consigo saber o que um pensa sentindo: gratidão e proteção, ternura, paixão. Uma paixão irrefreável é domada por braços cruzados que simplesmente cruzados permanecem. O ele que vejo o pensamento, quase dorme de um sonho para outro; talvez, sonhasse com ele sendo aquele ele exterior. Eles sendo um só.

15 de dezembro de 2011

Os Moveres*



Talvez um dos sinais do amadurecimento seja o reconhecimento do que te move, não exatamente do motivo da movimentação, mas o que te move. Estive durante muito tempo querendo saber a natureza da movimentação do meu espírito, sim, ele move-se. E o instante em que mais me sinto vivo é quando a movimentação está tão intensa que faz ele entrar em atrito/contacto com o mundo concreto das coisas. Então, acabo, nestes instantes, em conhecer as coisas num plano pleno.

Voltanto a natureza dos motivos, isto é, das motivações, digo, movimentações, percebo que os grandes espíritos (pessoas que fizeram da vida Vida) eram movidos por uma paixão absurda, cega, incontrolável. Tanto para o bem quanto para o mal, eles enxergaram em algo aparentemente parado, o motor da existência pessoal.

Bem verdade, nessa infinitude de engrenagens afetivas que temos, vamos aos poucos perdendo o vigor. A engrenagem-mãe partirá, a engrenagem-vó perderá o prazo de validade, a engrenagem-irmão somente será um compartilhador de nostalgias. Mas... ainda podemos pensar na engrenagem-filho, na engrenagem-companheira(o). Não, não quero traçar um paralelo entre homem e máquina, unh... pensando bem, quero sim! Aliás, já foi traçado. O homem é uma máquina de sonhos e ilusões. É preciso entender que as máquinas também são sensíveis, elas quebram, dão defeito, terminam... então, há um paralelo.



As máquinas são movidas pelos homens, pelas vontades humanas. E as vontades humanas sao movidas pelo o quê? Freud já disse do inconsciente. Jung já ampliou o dito com o inconsciente coletivo. E o que move o inconsciente? É o consciente na sua mais sorrateira atitude, dirão as mentes mais "privilegiadas". E eu acataria tal resposta. Mas o inconsciente pelo inconsciente ficará na inércia. A pergunta é: o que te faz levantar da cadeira? o que te faz dizer eu te amo para a pessoa amada? o que te faz levantar cedo?



Certa vez, li algo num livro chamado O Administrador de Sonhos, algo como: Os sonhos é(ou são*, pode concordar com o predicativo do sujeito) como a energia elétrica, não podemos tocá-la, enxergá-la de fato, mesmo assim a percebemos por manter tudo funcionando.

Seriam os sonhos o nosso combustível? Então, quem não sonha vive uma vida vegetativa?! Não, ainda não é o sonho. Melhor, não somente o sonho. Há inúmeras coisas que nos movem. Entre tantas, é cientificamente comprovado que uma boa alimentação é de bom valor para a energia. Caprichar na proteína, carboidratos, vitaminas, assim você se alimentará muito bem, podendo até morrer de infarto por uma vida inteiramente bem alimentada mas pouca empenhada em algo.

O ser humano é mesmo complicado, neh? É sim. É o nosso momento trágico, meu bem! Nossa salvação e nosso aniquilamento: o pensar e o pesar.

Já estou caminhando para outro assunto, que volte e meia sempre chego até ele. De antemão, o mais salutar é ir terminando sem saber exatamente o que nos move. Às vezes, o momento no qual me sinto mais vivo é justamente quando não penso a natureza do meu movimento. Não que esteja fazendo algo mecanicamente. É que estou apenas fazendo algo por prazer, sem recompensa, sem um sinal de retribuição, sem necessidade de elogios pela caridade, sem fins filantrópicos.

Rotineiramente, movimenta-me muito a voz de Caetano Buarque e Chico Veloso (rs). Mas também, os pensamentos de Gabriel José Márquez e García Saramago. Meus pés e coração também ficam mais ritmados quando penso em ser professor universitário e ter a vida de um professor universitário: orientar aluno, discutir, criar relações próximas, estabelecer vínculos afetivos, viajar, descobrir, publicar.

Estou começando a acreditar que o que movimenta o ser humano não são as coisas, mas o olhar. O modo de olhar, de perceber, de observar, de encarar, de CONVIVER E SOBREVIVER com as coisas em seus estados de inércia infinita.

11 de dezembro de 2011

Antes de Ir



Vendo um filme na televisão, os olhos dela começam a piscar numa frequência maior, de longe, assisto àquela cena frágil, delicada e poética. O olhar começa a embriagar-se de vontade de ceder. Eu digo sussurrando: Te amo. Virando o rosto para mim, ela sorri como que estivesse escutado uma voz de outro mundo, do mundo dela, do interior pessoal.

O filme continua, o sono cresce e eu percebo o meu encantamento responsável de proteger tão lindo sono que nasce vagarosamente. Eu digo sussurando: Dorme, meu amor, sonha. Sonho contigo daqui onde estou. Ela vira o rosto para minha direção, solta um beijinho no ar. Penso: será que ela me escuta?

Acordo. Percebo que ela era um sonho que sonhava. Eu queria ser o sonho dela. O homem dos sonhos dela; mas inegavelmente não sou. Sou feito de carne, nervos, sangue e ossos. Não sou uma ideia que a agrade.

Mas, Deus, ó, Deus! Queria ser abstrato para penetrar-lhe sorrateiramente e invisivelmente. Ah! Sonhos, sonhos... quando estamos a sonhar não julgamos a todo modo estarmos imbuídos de realidade? Quando você sonha, você acredita nele. Para mim, basta acreditar nela e ela, em mim.

8 de dezembro de 2011

Os Contrários (ou Dialética-Barroca)





Somos
Fera, Bicho, Animal, Instinto,
Carne, Osso, Sangue, Vísceras,
Preguiça, Gula, Vaidade, Inveja,
Sujo.

Queremos Ser
Humanos, Humanos, Animais humanos, Educados,
Espírito, Alma, Paixão, Energia,
Vontade, Equilíbrio, Gentis,
Afáveis, Ternos,
Limpos.

Queremos Ser
Fera, Bicho, Animal, Instinto,
Carne, Osso, Sangue, Vísceras,
Preguiça, Gula, Vaidade, Inveja,
Sujo.

Somos
Humanos, Humanos, Animais humanos, Educados,
Espírito, Alma, Paixão, Energia,
Vontade, Equilíbrio, Gentis,
Afáveis, Ternos,
Limpos.

Somos o que queremos ser?
Somos o que escolhemos para ser?
Somos o que nos induziram a escolher, mas de fato o que escolhemos(induzidos ou não) é o que somos.

Em fase de fundamentação teórica...

Em breve: algum texto aqui.




Em breve: algum texto aqui.




Em breve: algum texto aqui.

5 de dezembro de 2011

Dos Dias nos quais Não Me Encontro





"Na linguagem corrente, distância é a medida da separação de dois pontos. A distância entre dois pontos é medida pelo comprimento do segmento de reta que os liga. Quando se fala na distância entre dois pontos da superfície da Terra, então a distância é o mínimo comprimento entre as possíveis trajetórias sobre a superfície partindo de um ponto e atingindo o segundo (geodésia)".

Wikipédia

3 de dezembro de 2011

Diálogo Cantado

Se queres sentir a felicidade de amar,
Esquece a tua alma.
A alma é que estraga o amor.
Só em Deus ela pode encontrar satisfação.
Não noutra alma.
Só em Deus - ou fora do mundo.

As almas são incomunicáveis.
Deixe o teu corpo entender-se com outro corpo,
Porque os corpos se entendem, mas as almas não.

Manuel Bandeira




- Me olhe, então. Só basta o teu olhar. Teu olhar virado. Teu olhar enigmático. Teu olhar parado. Teu olhar cansado. Teu olhar vivo. Teu olhar enquadrado. Teu olhar perdido.

- Olho.


- Mas eu não quero só o seu olhar, pois senão poderia fotografar. Quero o seu pulsar, o seu sangue, tua pele, teu respirar. Teu cansar. És um dos amores mais fortes. És uma dos toques mais incríveis. És o gosto mais sublime. És o que eu não sei, o que mais me alucina.

- Você...

- Não fale. Todas as palavras cabem no mistério dos teus olhos. Deixe que te leio em silêncio pelo tato do atrito entre minha mão e teu corpo. Vem! Deixe de ser virtual, encontre-me no infinito de duas linhas paralelas que nunca se tocariam! Não, não venha mais. Vamos! Nós dois, já pensou? Nós dois sendo três, quatro, cinco...

- Tá, tá, tá! Agora, chega de palavras bonitas. Vamos falar a linguagem do amor. Você, diz pra eu ficar muda, faz cara de mistério. Tira essa bermuda que eu quero você sério..........................................................................

2 de dezembro de 2011

O Amor e Outros Demônios






O que é o ser humano?

Todos querem responder a essa questão. Foi preciso espedaçar a ciência para tentar compreendê-lo e agradá-lo, satisfazê-lo... Existem seres humanos, e todos eles servem de palco para a criação e destruição. São verbos de ligação ambulantes. São seres rastejantes, terrestres que anseiam pelo ar, pela água. Acho que a melhor definição seria essa do palco, ou quadro, ou tela, ou parede, ou vaso que representam algo que o próprio ser pinta ou deixa-se pintar.

O que é o Tempo?

(...)

O que é o Sofrimento?

(...)

O que é o Amor?

(...)

O que é Deus?

(...)

1 de dezembro de 2011

Clowns de Shakespeare sobrevivem



Minha música para a voz de Caetano.

Ande...
de pés descalços. Machuque os pés,
e valorizará o sapato.

Deixe que o seu amor vá,
e fique,
e você será um poço de remorso!

Aprenda a zelar, saiba, antes, o que é amar. Distancie-se para ter a certeza de que
o amor nunca fracassa, nunca fracassará.

Humanos, seres humanos, inventivos, perdidos, autodestrutivos, construtivos.
A Maquiagem do teu rosto pode te esconder, mas nunca,
nunca, nunca irá deixar você deixar de ser você.

Ligue-se. Ate-se. Ame-se.
Conceitue, signifique, gaste.
Brás Cubas morreu de uma tal de emplasto.
Benjamim descobriu-se por um ventilador.
E você, você já tem essa músicaaaaaa.... que pode mudar, desatar os nós da existênciaaaa.

Aprenda a zelar, antes, saiba o que é amar. Distancie-se para ter a certeza de que
o amor nunca fracassa, nunca fracassará.

Muita merda, quebre a perna, quebre a cara. E viva, e aprenda, e aprenda a viver, meu clown!



Nos dias de hoje, trabalhar é imperativo. Depois que disseram que o trabalho dignifica o humano, nada mais se tem repensado sobre isso, isto é, nada mais tenho lido a respeito. Empenhar sua energia para a aplicação de uma força em determinado corpo: Trabalho. Há pessoas que o amam, há outras, que o odeiam, outras tantas, convivem em paz caótico e irrefletido.

Para entendermos a narrativa de O Palhaço é necessário uma entrevista exclusiva com o Selton Melo, devido ao recorte provocativo da vida do Benjamim. Muito pouco sabemos sobre ele, mas o riso partido é de uma doçura sem igual, um ar virginal, casto. Em meio a paz de espírito que ele "exala", vamos dando conta dos conflitos angustiantes de um ser que poderia ser outro, de um ser a beira do existencialismo.

Quantos anos ele tem? Aparece no filme? Não lembro. Mas ele aparenta estar passando por um período de aceitação da vida (que chega para uns e nunca para outros). O hábito de "divertir"(fugir do tédio) os outros, faz dele um ser que pensa o tempo todo o sentido de seu divertimento.

Vivaaaaaaaa!

28 de novembro de 2011

Uma Poesia



Solta-se do verbo os vermes reais,
entoam um canto multicor.

Transforma-se o vento em neblina marrom,
ensaia uma dúvida turva.

Poeira, poeira,
areia, areia, tudo é nada.

Lá está o menino na caixa,
calado pelo silêncio fúnebre.

Eis a terra que aterra,
eis as pedras que apedrejam.

E eis o tempo que finda
e eis a fenda que fecha.

24 de novembro de 2011

.Quanto ao Futuro.



(Texto escrito em Maio de 2011, transferido [pela relevância exegética] do meu outro blog "Asneiras do Vento")


Sim, tinha certeza do que estava fazendo ao matricular-me na disciplina de Literatura Brasileira IV, EU QUIS ADIANTAR DISCIPLINA. Estou matriculado em Literatura Brasileira I e Literatura Brasileira IV. O fim e o começo. Sabia que tinha um encontro marcado com Clarice Lispector, não imaginava que ela seria tão gentil em me aparecer da forma gomo gostaria que ela fosse: rápida, dinâmica, sensível e cruel. Ela veio vestida de "Rodrigo S.M.".

A Hora da Estrela é um livro que não poderia deixar de ler, voltaria das profundezas da terra dos mortos (dito cemitério) para folhear as páginas por intermédio de Brás Cubas, aliás eis aí um espírito recorrente na leitura da história de Macabéa. O Narrador é caústico e consegue ser o que ele não queria que aparentasse ser, piegas, como toda escritora feminina, ironia crítica de Clarice aos que a definem do tipo.

Mas ela (a dona do livro) estava lá. Como não notar aquelas frases não concluídas, aqueles paradoxos tão enigmáticos, aquele obscurantismo sensual da palavra além de si? Como não notar a sorrateira intimidade que nos envolve com tão instiganete linguagem, ainda que pretendida ser simples.

E quanto aos fatos? Os fatos são duros tal qual pedras. E quanto as pedras? As pedras são feitas do que quer o poeta. Drummond canta a do caminho, Daví atira em Golias, o homem descobre a roda, o escultor modela o homem. Rodrigo que fizeste com a pedra senão atirar contra o teu e nossos próprios egos?

Lendo a história de Macabéa e tomando notas dos pensamentos percebidos por Rodrigo, lembrei de uma amiga. Uma amiga que não me ler por aqui, até onde sei, me ler pessoalmente, olho no olho, lábios alinhados e pensamentos transparentes, só não sei se ela pode dizer ser eu amigo dela. Macabéa parece com você que não me ler por aqui (plim, plim). Você que se alimenta mal, gosta de refrigerante e diz não saber de nada a um raio de mil metros a sua volta.

Eu, tal como Rodrigo S. M. por Macabéa, amo minha amiga. Cuidaria dela com todo amor e cuidado, mas prefiro deixá-la distante ao cuidado do meu olhar. De fato, somos distantes.

Se vós continuais a me ler, sabeis: o desfecho da festa é a morte, a hora da menina feia ser Marylin Monroe.

Senhor, quantas meninas não sofrem complexadas por não terem o brilho das meninas aprisionadas na tela de uma caixa mágica? Minha mãe deve ter sofrido muito com minha bisavó. Presa, limpando chão, perdendo a sua infância e sua adolescência para agora, aos quarenta e poucos anos, sorrir o sorriso que perdeu no balde de cera e água. Céus! Que mundo injusto! Sejamos recompensados por tanta tristeza e infelicidade.

Deus, devemos ter piedade de ti?!

Por quanto tempo estaremos em tempo de Morangos?! Para mim, que mal sei o que é tempo de Morangos, se sei bem, fingirei sonsidão.

Por quanto tempo ficarei com olhos anuviados de egocentrismo?! Deus! Enquanto reclamo da mosca que caiu em minha sopa, um outro agradece ao vento por ter um pão pisado pelos pés de pessoas tão apressadas na grande metrópole! Deus. Mal sabia eu que a descarga do banheiro é um luxo, que a água encanada é uma dádiva!

Merecemos mais, e mais, e mais. Todos merecemos, as cotas dos negros é insuficiente ao passado. Eu também o sou.

José Saramago diz que quanto mais palavras conhecemos, mais podemos expressar com vivacidade o que sentimos.

Sentir nada.Pensar nada. Viver nada. Saudade do futuro. Saudade de ter futuro. E quando se tem, se tem uma Mercedes Benz em sua direção. Eo futuro? Quanto ao futuro?

Abre teus olhos, reestabeleça a vida interior.

Diga-me que abrirá os teus olhos.
Diga-me que abrirá os teus olhos.
Diga-me que abrirá os teus olhos.

“Rezem por ela e que
todos interrompam o que estão fazendo para soprar-lhe vida, pois
Macabéa está por enquanto solta no acaso como a porta balançando
ao vento no infinito. Eu poderia resolver pelo caminho mais fácil,
matar a menina-infante, mas quero o pior: a vida. Os que me lerem,
assim, levem um soco no estômago para ver se é bom. A vida é um
soco no estômago.”
A Hora da Estrela, Clarice Lispector

Sim, eu admito de cabeça baixa e com olhar de homem que soluça, eu já escrevi coisas que Clarice já escreveu. Eu não a conhecia. Nossos pensamentos se parecem, e eu não gosto muito de saber disso. Porque talvez eu nunca goste da intimidade que ela propõe,

Sim.

19 de novembro de 2011

Sentimentos Vegetativos



Mais um livro de memórias do que um livro de ficção. Mais um registro de psicologia social do que romance regional. É um livro que não aceita rótulos com facilidade. É um livro que recebe o leitor com um aconchego infantil, com palavras repleta de ternura e travessura.

O persongem principal chama-se Zezé, menino de cinco anos que jura ter seis para ser aceito no colégio público. De família sem privilégios, sedentos de alimentos e arte, ele desenvolve uma sensibilidade sem igual para as coisas. Muito devido aos ensinamentos do seu Tio Edmundo, que fala sobre a sociedade e as outras causas do mundo. Aliás, o senhor Edmundo é a fonte primeira da sabedoria precoce do menininho. O confidente primeiro foi o pequenino Pé de Laranja Lima que servia como um psicólogo; só a arvorezinha sabia os sofrimentos do menino, mas também dos sonhos de ser um astro daqueles do filme do velho oeste.

- Por que as pessoas dizem que o meu padrinho é o Diabo?

Diziam isso para ele. Não por acaso, ele fazia jus a isso. Como assim, Diêgo(quem esceve), você está defendendo os parentes de uma criança que o define como afilhado do Diabo?! Não, não é isso. É que o Zezé inventava situações travessas. Uma vez, não por maldade, arranjou uma meia na estrada e pensou que daria uma ótima cobra; e a fez com talento e rigor, a ponto de assustar uma mulher, que por infelicidade dele, estava grávida. Ainda bem que ela não "perdeu" a criança. Imagino o rumo da história ir para outro caminho. Ele ficaria traumatizado, não conheceria o seu grande amigo, o velho Portuga, abandonaria o Miguinho ainda ainda mais cedo e se fecharia para o mundo de maneira mais entecipada e amargurada. Mas nada disso aconteceu.

Zezé pendurou-se no carro de Manuel Valadares, que não o perdoou da façanha do menino. Deu umas palmadas nele, assim tornou-se o pior inimigo do menino, despertando uma emoção nele, o ódio. Mas que... como o mundo gira, dá voltas... a narrativa também tece situações que caminham rumo à contradição, às peripécias, às desmedidas, graças a Deus e aos demiurgos!

Com efeito, Manuel Valadares recebeu a alcunha de Seu Portuga. Do ódio ao inimigo nasceu o amor supremo ao mais novo amigo. E do amor supremo nasceu o mais doloroso ato de perder, de deicar ir. Um trágico acontecimento faz com que o leitor fique em estado de transe. Uns podem verter lágrimas sobre as páginas, outros, tais como eu, podem deixar na represa dos sentimentos uma sensação que, de fato, é um nó na garganta.

Ainda é tempo, é sempre tempo. De pedaço em pedaço é que se faz ternura. E como já diz a Xuxa, não bata (nem com palavras nem com olhar), eduque! E para isso, é preciso saber o que é Educação.

17 de novembro de 2011

Eu: Quixote e Casmurro




As pessoas olham assim para o Diêgo ou Johnatan, com um olhar de compaixão, afeto, desprezo (às vezes). Eu gosto disso. Gosto de me sentir protegido tal qual me sinto ao embrulhar-me com o lençol da cabeça aos pés, sinto-me envolto do útero da minha mãe. Um proteção sem igual, distante da filosofia e das linguísticas, assim, distante dos perigosos abismos pen(s)áveis.

Percebo o meu caráter viajante, vacilante, distante. Alguns amigos reconhecem o meu ar filosófico (aqui no sentido mais perjorativo ou esteriotipado) possível: com a cabeça no mundo da lua. Gostaria de dizer que não sinto o menor prazer em estar no mundo da lua, em verdade, vos digo: nunca estive. Conheço Macondo, lá sim, sou amigo do rei Márquez. Se você ler isso, pensará: nossa, ele tem um sentido de vida!

Não tenho.

Nem mesmo minha avó constitui uma razão existencial a minha vida. Nunca tentei morrer, mas já cogitei a possibilidade. O meu problema é justamente o problema da Lane no filme Setembro, sempre tentei Viver. Busco sentidos, busco a construção de um sentido para as coisas na minha vida; apesar de já ter perdido a ânsia de conseguir o mais rápido possível. Quem me enxerga não é difícil de perceber a minha condição de arrastar-se pelo mundo, como retirando uma força do nada. Nesse sentido, transpareço a mais profunda angústia machadiana.

Não fui sempre assim.

Já tive minha Capitu e o meu Sancho Pança, perdi-os por puro descuido. Eis aí uma característica deste personagem redondo que vos fala: DESCUIDADO, DISTRAÍDO E INGÊNUO. Mas de uma ingenuidade que assemelha-se a mais impura ignorância.

Se consigo perceber o momento exato da mudança de comportamento? Consigo. Ler Nietzsche foi um profundo equívoco.

Quixote, quando encontrei o Rei Márquez em Macondo e fiquei envolvido com ar fantástico das coisas ao meu redor.

Quero escrever isso não como uma declaração e um atestado de continuidade. Quero escrever para saber que fui um sujeito histórico.

Uma das coisas que mais me revela:
O meu ponto de vista sobre o céu;
antes, um lugar sagrado, vasto, infinito, pleno;
agora, o mesmo lugar vasto com a imprevisibilidade da grande destruição.

Hoje, identifico-me com um equilibrista que a qualquer momento pode desabar, tais quais minhas metáforas preferidas: castelo de areia, corda bamba e folhas secas. Eu sou tão vasto,

14 de novembro de 2011

Setembro




Um espaço apenas, limitado e vital. Um tempo inferior a três dias. Chegadas e despedidas constantes. Vários solilóquios. Muitas quebras de perspectivas.

Na primeira vez em que o filme foi gravado, Woody Allen não se agradou com o resultado e decidiu cancelar o contrato com metade do elenco, bem como reescrever algumas coisas. Mia Farrow está no elenco, permanece e faz o personagem principal, Lane (um quase alterego, senão o próprio, do diretor). Isso por causa da fragilidade, timidez e na grave inaptidão social com seus aspectos filosóficos. No entanto, há uma CAUSA para o comportamento singular da protagonista, algo que não confere a realidade do diretor/roteirista, o qual não falarei agora.

Com uma música de Jazz, uma casa bem arrumadinha e com predominante com âmbar. Um lustre muito bem polido e perfeito é sustentado pelo teto. Há cadeiras e sofás, há muitos objetos, é um ambiente bastante preenchido. É um dia comum. Pessoas sentadas no sofá conversam em outro idioma. De repente, Lane entra ofegante queixando-se do comportamente da mãe (primeiro indício da tensão entre elas).

Sabemos que haverá uma festa. (...)É noite. Músicas clássicas, piano, drink. Chuva. Raios. Trovoadas. Uma tempestade lá fora, total tranquilidade cá dentro. O namorado veranista de Lane começa a olhar diferente para a melhor amiga de sua namorada.

(...)

É uma realização bastante poética. Há de se creditar a tempestade (física) que dá ritmo a sucessão dos eventos que derrocam para uma grande situação, mas também a queda de energia elétrica e utilização de velas, é mágico observar o acontecimento num filme. Há de se observar e reobservar os diálogos e as perspectivas profissionais influindo na perspectiva pessoal perante as escolhas da vida. A exemplo disso:

Numa mesa de sinuca, joga um profissional do campo das Ciências da Natureza contra um, das Ciências Humanas. Um professor de Física contra um Escritor em busca de inspiração. O diálogo é essencialmente, e interferencialmente esse:

- Qual a bomba atômica está produzindo atualmente?

- Escolhi um campo mais aterrador do que isso.

- O que seria mais aterrador que a destruição do mundo!?

- A consciência do absurdo da existência. O mundo é feito dos acasos cósmicos, é moralmene neutro e inimaginavelmente violento. O universo surgiu do nada e ao nada voltará. As leis físicas são insuficientes quando aplicadas a um campo ou a vastidão que é o universo.

Pobre escritor e pobres professores de Literatura que pensam dominar integralmente o dom da interpretação e suas estéticas da recepção. Um sujeito totalmente impregnado de racionalidade manifesta um pensamento avassaladoramente poético, por isso transcendente. Esses são personagens Allenianos, a qualquer instante pode nos surpreender tamanha a potencialidade reprimida no seu mais recôndito mistério interior.

Queria falar mais sobre o filme. Mas deixo para falar mais por aqui... assim, aos poucos, tal qual os filmes dramáticos do meu imprescindível Woody,

12 de novembro de 2011

Receita de Torta Salgada

Antes, você precisa de um dinheirinho. Caminhe até a venda mais próxima, no caminho você pode ir pensando: Será a torta mais deliciosa que eu jamais fiz. E vá caminhando, e vá lembrando dos ingredientes:

500g da alva Farinha de Trigo com fermento formidável

01 xícara com Óleo que tradicionalmente tenta encontrar-se com água que tanto lhe é semelhante

01 xícara com a alva Maisena prima da Farinha de Trigo

01 pacotinho de Queijo Ralado pelas máquinas de poesia automática

02 pitadas (da junção do dedo indicador com o dedo polegar com Sal)

04 xícaras com o leite mágico do crescimento das crianças

04 ovos das galinhas clariceanas


Despeje cuidadosamente o leite no liquidificador, perceba que ele cairá num maciez infinita tal como um pano de alta seda. Em seguida, derrame a Farinha de Trigo, ela ganhará um aspecto amarelecido quando entrar em contato com o leite. Quebre a proteção branca da gema e sua clara, despeje-as. Certamente, na timidez de serem vistas despidas da casca, ambas, a gema e a clara partirão para a profundidade do recipiente.

Observe a mistura de cores claras: amarelo e branco.

Misture todos os outros igredientes. É uma festa, é uma celebração.

Ligue o liquidificador.

Observe o que o tempo e a natureza da velocidade faz com as coisas. Desligue.

Você já tivera que untar a forma. Em causa disso, tivera mais ainda que imaginar o corpo da pessoa amada sendo untada de manteiga e afeto sublime.

E o líquido pastoso cairá e assumirá uma forma da forma que você escolheu. Leve ao forno. Espere o ponteiro dos minutos percorrer um espaço no relógio equivalente a mais ou menos 180º. Temperatura de 90º.

Enquanto a torta salgada está sendo feita, sugiro que leia algum capítulo do livro de Eclesiastes.

Bom apetite!

1 de novembro de 2011

Man on a Tightrope, Philip Long

E se você se apaixonar perdidamente, sem pensar no futuro. Apaixonar-se loucamente, assim sem mais nem menos. Não existe mais paixão hoje em dia? Pode ser, mas pode ser também que não exista paixão nos olhos de quem enxerga e julga não haver. Mas, agora, vamos tentar enxergar isso num ser apaixonado.

"Oh Senhor,
Eu estou cansado.
Eu sou um homem em chamas.
Eu ainda a mantenho em minha mente
Então eu não sei bem porquê"


"O coração tem razões que a própria razão desconhece". É disso que tento falar, o homem da situação é totalmente passional. Está à deriva. E o lindo nos personagens planos, àqueles que pouco demonstram capacidade de alterar o seu destino, àqueles vulneráveis demais, é exatamente a profundidade esmagadora do universo sensível criado dentro deles.


"Bem, meu coração foi roubado
Por uma garota vestida como uma santa.
Oh, ela não tem nome.
Mas é viciante como cocaína"


O coração ser roubado, vamos tentar imaginar isso. É possível notar a violência e sujeira das palavras "cocaína, roubado, viciante" se comparadas as palavras tão "castas" que vinham sendo ditas. Nosso personagem apresenta-se consciente do que aconteceu, mas não entende como permitiu que isso acontecesse, ou melhor, como isso aconteceu. Nesse momento aparecem certezas e incertezas sobre quem é a mulher. Seria uma santa na aparência ou na essência? Se é santa por qual motivo é viciante, sendo o vício um pecado?! Por ainda não ter nome, é sugerido uma pouca falta de intimidade com a mulher. Poderíamos estar diante de um Pierrot totalmente fantasioso em relação aos sentimentos da amada.

"Eu sou um homem em uma corda bamba
Eu sou um homem em uma corda bamba
Eu sou um homem"


O que me inquieta é saber o que está abaixo da corda. Seria o abismo que Nietzsche um dia mencionou? O que sustenta de um lado e do outro a corda esticada? E com que forças nosso personagem consegue está ali? Será que a paixão é um misto de riscos e comedimento? Será que tudo ganha proporções maiores, como o balançar de uma mão e um virar de rosto?

"Oh, Senhor,
Se eu cair de joelhos
Oferecendo-lhe alguns elogios,
Você poderia aliviar meus medos?
Ou a minha miséria?"


Deveríamos ter falado sobre a primeira palavra da música, o vocativo "Oh, Senhor". Mas agora que a oração (e a palavra é exatamente essa, a música toda é uma oração a um ser divino que confude-se com uma conversa de amigo para amigo. Para mim, este trecho é um dos mais lindos. Toda a fragilidade do ser humano é exposta. O personagem plano (o qual deveria ter definido de eu-lírico) começa a falar sobre sua condição de ser, eu penso em pranto, só consigo imaginar esse trecho aos prantos.

Os versos "Se eu cair de joelhos / Oferecendo-lhe alguns elogios" pode sugerir uma pessoa que tenta negociar com Deus, dessa forma, percebemos que o nosso eu-lírico era, e pode continuar sendo em grau menor, um ser racional. A razão que se percebe em total estado de miséria.

"Você sabe, meu coração foi roubado
Por uma garota vestida como uma santa.
Oh, ela não é minha amiga
Mas continua pulsando em minhas veias"


De fato, não há um vínculo muito forte entre o sujeito e o "objeto de desejo". Nosso Pierrot está profundamente encantado por uma pessoa que acabara de conhecer, entenda a palavra conhecer como "Espantar-se, Desvendar, Enxergar com olhos, nariz e toque".

Mas o tato talvez se sobressai nessa parte da canção. O pulsar na veia retoma a cocaína e o estado de tensão no qual se encontra o homem.

Eu sou um homem em uma corda bamba.
Eu sou um homem em uma corda bamba.
Eu sou um homem.


A canção caminha para o encerramento, enquanto o homem caminha para um lugar onde não sabemos o que o espera. A condição dele está no máximo cuidado em continuar na corda bamba, uma vez que Deus não o respondeu sobre a negociação.

"Eu sou um homem em uma corda bamba.
Eu sou um homem em uma corda bamba.
Eu sou um homem".


Chama-me a atenção o fato de terminar com a omissão da corda bamba, "Eu sou um homem". Nossa mente, pelo menos a minha mente completa o restante da frase. E nós na condição de ser homens, melhor, humanos, identificamo-nos com o eu-lírico por estar sujeito a qualquer coisa. Como dizem, para morrer (mas também amar, encantar-se, iludir-se, apaixonar-se, sofrer, perder, ganhar), basta está vivo.

Aconteceu em 24 de Fevereiro de 1996

"Prometo deixar um profundo vazio na tua vida, como você fez na minha, assim sem mais nem menos. Eu te amei, idolatrei, fantasiei, idealizei. Quis sorrir contigo, chorar contigo. Você ensinou-me o silêncio. Ensinou-me o respeito ao outro, ensinou-me a duvidar, a acreditar, a sentir com mãos, olhos, pés.

Prometo visitar-te, vezenquando. É a dinâmica da vida, entende? Eu preciso ir, preciso crescer na realidade.

Lembro daquela noite, daqueles filmes, daqueles risos, daquelas conversas. Lembro-me de tanta coisa que você pensa que esqueci..."

Felipe abandonou o lápis e o papel sobre a mesa. Correu para discar uns números no telefone.
....6

- É... quem fala?

- Caio.

- Caio, esse número é da Clarice?

- É.

- Posso falar com ela?

- Não.

Desligou. Rasgou a carta. Quebrou o lápis. Achou uma corda e se enforcou, assim sem mais nem menos (num belo dia banal).

Sonhei (de Verdade)

Sonhei que estava num caminho entre matas e matagais. Na companhia de pessoas que eu enxergava como amigos. Aos poucos, as pessoas me pareciam estranhas e eu alimentava um medo. Aos poucos, as pessoas queriam me agradar, me fazer sorrir. E de repente, eles tiraram uma corda de uma mochila ou algo parecido; de repente, vieram em miha direção. Eram homens que se pareciam comigo.

31 de outubro de 2011

O Evangelho Segundo São Mateus



Análise Espremível*

Dramaturgia

Sendo uma tessitura de textos, ou seja, composto de outros textos, por isso mesmo repleto de intertextualidade, a coesão é fantástica. Muito conativo, poético, metalinsguístico. Acima de tudo conativo e poético ao mesmo tempo.

Pretexto da Dramaturgia:
http://www.insite.com.br/art/pessoa/ficcoes/acaeiro/213.php

Atuação

Naturalista!? Talvez, sim. Bem, naturalista. Acho que os atores representam atores, artistas. Carta branca para serem quem são de verdade. Vezenquando interpretam atores decadentes, canastrões. Forte toque expressionista. Já a projeção de voz...

Direção

Não sei o que falar. Mas a mistura de linguagens e a ousadia de relação arte-público parece-me artaudiana. Tem muita coisa do Brecht, mas eu só sei da quebra da quarta parede. Tem coisas do Stanislavski, aliás este grande* é meio que ironizado bem nas entrelinhas, "colocar uma cruz, figurinos de época, diabo alegórico".

Cenário, Figurino e Iluminação

Singelo e simbólico o suficiente para não tecer mais nada de consideração. Apesar de mesas que nunca são usadas pelos personagens, aqui estaríamos entrando no plano da opção estética que é quase aquilo de gosto, que remete aquela frase que "cada um tem o seu".

Sonoplastia

Doce e um pouco apelativa demais. Funciona, comigo funcionou.

Encantamentos Notados

Quando eles falam da massa, parece-me que falam do corpo, atualmente sob angústia: uma mercadoria. A massa gosta de apanhar, depois, de ser acariciada.

Gosto muito da cena da menina, quando ela fala que Jesus pode ter sido uma imaginação, um mito. Mas que sei-lá, que bom que ele foi inventado!

Palavras que saem da boca (direto do coração). Mulheres que foram chamadas de prostitutas. Pecados modernos.

Opinião

Todo o espetáculo só funciona para o público se houver uma quebra de resistências constante. Foi preciso, para mim, assumir um esvaziamento de valores e ideologias. Ao lado de Cordel do Amor sem Fim, Till - A Saga de um Herói, Amaranta e Rebú, o espetáculo está sobre as coisas mais lindas que meus olhos contemplaram e contemplarão num futuro de lembranças.

No mais, e para mim mesmo:

Foi comovente, e isso não me trás nem alimenta maiores explicações lógicas e coerentes. Assim como Clarice, uma vez, com vontade de falar, com um hesitar, termino com os dois pontos, que para mim é como termina o espetáculo:

29 de outubro de 2011

Manifesto à Reignorância das Coisas In*ú*teis

Resumo para quem não quer ler por completo:
Tente enxergar os PENSAMENTOS seus sob perspectiva de quem está numa maca de uma UNIDADE DE TERAPIA INTENSIVA.


Para escrever sob o marcador de Reflexões Filosóficas, sempre estudo um bocado antes. Para escrever isso que vos escrevo, leitor, precisei assisti a uns dois vídeos sobre Foucault, outros sobre Epistemologia e ler algumas matérias e artigos. Unh, conhecimento fragmentado, você pode estar pensando. Que você pense o que quiser. Aqui é um Manifesto!



Se eu fosse político do Ministério da Educação faria uma reforma educacional bastante polêmica. É preciso rever o que os nossos estudantes estão estudando, considerar o grau de maturidade e o nível intelectual.

É muito angustiante observar alunos fazendo balanceamento químico, reações, calculando massa molar. Ah, que se ensine, sabe, leitor? Mas que se diga para quê! O conhecimento precisa passar pelo filtro do:

O quê?
Para quê?
E como?

É frustrante, para mim, escutar conversas de amigos superempolgados num assunto, num assunto... ah, tá, é direito de cada um. Mas, e o silêncio? Por que o ser humano foge do silêncio de uma maneira tão radical? Sempre estar falando para agradar, para ser simpático, DEMONSTRAR INTERESSE..

Vamos falar de pornografia, da morte, das topadas e suas filosofias que perpassam o nosso cotidiano. Vamos falar do filme da Sessão da Tarde, do nosso primeiro beijo, de uma conta de matemática que se refere a uma P.A. duma* dívida maldita que não para de crescer.

Vamos quebrar esses paradigmas infelizes de que Conhecimento Nunca é Demais, ATÉ PORQUE SIM, ELE É. Conhecer demais causa angústia e outras desgraças. CONHECIMENTO É PODER só quando você é beneficiado pela sorte, SORTE de ser filho de um barão, passar num CONCURSO PÚBLICO, e antes disso tudo NÃO TER MORRIDO DE FOME.

Não quero proclamar uma SOCIEDADE DESINFORMADA, VELADA, ALIENADA. Queria propor uma reflexão sobre a FUTILIDADE dos meus e dos seus pensamentos sobre coisas muito eruditas. O que interessa, de fato, é a banalidade e a trivialidade dos acontecimentos. E não nego os devidos valores a gênios clássicos e carrancudos, mas se não tiver finalidade prática... Até que não tenha, sabe, mas que seja útil para tornar você uma pessoa melhor(melhor no sentido de que você sinta-se bem consigo mesmo, no silêncio, no banheiro, sentado ou sentada no vaso sanitário).

Filmes, Artigos, Relatório, Monografias, Dissertação, Ópera, Teatro, tudo isso é TEXTO. O PRETEXTO é sempre a VIDA de quem POUCO PENSA, e Muito Faz.

Falem menos, meus intelectuais idiotas! Escutem os ditados populares, intelectuais imbecis! Abram os ouvidos para escutar a verdade que é feita de pó de estrada e não pó de livro, filmes e documentos.



Meus intelectuais idiotas, lembrem de que a existência precede a essência! Respeitem as mentes diversas que, às vezes, mentem para si mesmas por necessidade, vontade, ou até mesmo, bel-prazer. Usem da Linguística para pensar.

Meus intelectuais idiotas, o português correto, puro e perfeito só existe na cabeça de cada um de vocês e só funcionam numa sala onde só vocês estejam. Aí, usem da sintaxe e da prosódia no ritmo frenético de um Caetano Veloso apelativo pós-tropicália.

De gênios em gênios, eu sempre fico com Woody Allen. Ele que faz da filosofia um acidente casual nos seus filmes. De gênios em gênios, fico com Alberto Caeiro e com Clarice Lispector quando diz:

"Não entendo. Isso é tão vasto que ultrapassa qualquer entender. Entender é sempre limitado. Mas não entender pode não ter fronteiras. Sinto que sou muito mais completa quando não entendo. Não entender, do modo como falo, é um dom. Não entender, mas não como um simples de espírito. O bom é ser inteligente e não entender. É uma benção estranha, como ter loucura sem ser doida. É um desinteresse manso, é uma doçura de burrice. Só que de vez em quando vem a inquietação: quero entender um pouco. Não demais: mas pelo menos entender que não entendo."

Clarice Lispector


Mas que fique bem claro. O conhecimento só é desprezível quando se o tem. E se for para pensar, penso com a cabeça e depois vou irradiando o pensamento pelo corpo todo.

CRIE SIGNIFICADOS, PRODUZA SIGNIFICADOS, REINVENTE OS SIGNIFICADOS

(E pensar que a Filosofia que surgiu de um "simples" questionar para amenizar uma pertubação espíritual, transformou-se num emaranhado de coisas que sufocam os seres humanos).

Espero que tenha entendido o que eu quis dizer, ainda que por meio do resumo.

28 de outubro de 2011

O Espanto


Distante da casa, pela janela ela olhava o ar cabisbaixo do boneco de farrapos. Exposto numa cruz, como Jesus Cristo ou como Judas, estava expusando os males da humanidade. Toda a metáfora da condição humana estava nele, cravado nele.

Aves sobrevoavam os arredores das plantações de trigo, e ele fingia ser um humano. A menina entristecia-se pela incapacidade do amigo; a situação intensifica-se quando um abutre pousa no seu ombro fictício. Uma bicada, outra bicada, sucessivas bicadas provocam uma lágrima que percorre o rosto clássico da menina do campo. E uma lágrima é ponto de partida para uma cachoeira. Tal como Prometeu Acorrentado ele fica inerte pagando por uma dádiva sobre-humana.

Sofya olha os finos braços, o falso nariz e percebe-se tão frágil quanto o amigo crucificado. Identifica-se com a imperfeição, com a ignorância, mas não reconhece o amor sublime que o crucificado representa à humanidade. Sofrendo ali, sem expressar os sentimentos que quer, reprimido... calado, subjugado, subordinado.


O Espantalho, de tão feio e deprimido, disse:

- A falta de beleza não se deve a minha falta de verdade. Sou feio porque assim me criaram. Sou feio para não estragarem tua plantação. Protejo-te afastando o perigo de ti, e angustiamente, afasto-te. Meu amor é de vidro, e todo dia quebra-se ao ser observado pelo seu olhar simplista. Você nunca irá me reparar, me perceber. Mas eu estarei aqui, te protegendo do mal.

A mensagem é levada pelo vento aos ouvidos da menina. Mas no percurso, aos ares do campo, perde-se um pouco, soma-se alguns cantos dos passáros, alguns ruídos de máquinas e respiração de sestas. Chega algumas palavras ao ouvido dela.

- Faço isso por amor, um amor que nem mesmo um ser vivo é capaz de sentir. Um amor passional ao extremo. Um amor que é dor e paixão. Um amor de pedra, rocha...


Então, os pais dela abrem a porta e chamam a menina para ir às compras do mês. Adolescente que é, enxuga o rosto e vai.

- O que foi, meu anjo?

- Nada, pai. Só bobagem (minha primeira bobagem).

Lá fora, o espantalho é desfeito pela dança dos abutres. Dentro do carro, a menina observa a maldade vivaz sobre a cruz nas plantações, enquanto a distância vai se realizando. Sofya pensa: Amanhã, farei mais um outro espantalho.

26 de outubro de 2011

Leonard Zelig e Os Outros



O filme de 1983, de nome-título Zelig, lembra-me muito um conto fantástico do Murilo Rubião, Os Dragões. Mas não pretendo escrever sobre tal aproximação. Pretendo escrever sobre o grande ponto filosófico do filme: até que ponto nós somos nós mesmos? Ainda mais agora em meio a tecnologia cibernética. E não quero ser visto/entendido/lido como purista. Tento refletir, por uma consciência efêmera baseada nos bits da rede social, sobre quando nós não somos nós mesmos para tentar ser o outro. Tento refletir acerca do momento em que nossa felicidade é exterior a nós mesmos e encarnada no outro.

Psicótico ou neurótico, o nosso personagem-título foge às convenções habituais. Nasceu predestinado, coitado. Teve de carregar o peso insuportável da vida determinada, assinada, carimbada com todo o direito da burocracia de órgãos públicos. É um sofredor, mas às luzes dos holofotes do mundo americano, o sofrimento é louvável. A ideia do sofrimento, o ideal de sofrimento, a catarse aristotélica, a purificação do espírito. Jesus Cristo exposto na sala de estar, crucificado, mortal, sangrando, redimido, finito. O nosso Leonard, é um Jesus Cristo sem poder.

Em certa festa, conversou com diplomatas, deu ordem na cozinha, tocou instrumentos musicais. Cresceu com mania de querer agradar aos outros, a primeira lembrança disso vem da escola. Em certa aula, a professora questionou toda a turma sobre quem tivera lido "Moby Dick", todos da classe, exceto ele, leram. E naqueles poucos segundos de mãos que se levantam e ficam levantadas, Zelig mentiu, mas antes de ter mentido, sofreu pressão social. Inicia-se a aventura homérica do homem camaleônico que viveu intensamente na década de 20, escrito, dirigido e interpretado por Woody Allen.



Leonard Zelig é um bom selvagem que vai se deixando levar pelos outros, só assim ele poderá viver no seu tempo. Uma grande lição do filme seja o de aceitar a realidade, moldando-se a ela. E nós já não seremos uma essência, um uno; nós tenderemos a ser um produto do meio, um ideal de Durkheim. Vigarista? Político? Continuo pensando nas condições de neurose ou psicose.



A questão levantada inicialmente, de nós não sermos nós mesmos, rompe-se e dissolve-se aqui. Ser o ser é impossível. Somos o que somos é impossível. É preciso, muitas vezes, separar o poético dos fatos. Ser e estar são verbos de ligação. Ninguém é o que é; alguém é alguma coisa baseada em outra coisa. Não que sejamos exatamente, prontamente, integralmente um produto do meio; nós somos a visão que temos do meio e, consequentemente, a soma das coisas que nós aceitamos e incorporamos a nosso comportamento. Zelig é um caso especial, visto que ele não filtra o que é bom para si; tentando agradar, ele vai descontruindo a própria identidade.

Imputa-se, importa, percebe-se que com técnicas visuais fascinantes, um roteiro fraquinho e compulsivo, uma interpretação realista-naturalista-fantástica, o diretor/ator/roteirista Woody Allen empreende uma espantosa ideia típica dele: um sujeito espantado com o mundo que o cerca, o pressiona e tenta defini-lo.

As Primeiras Vezes

Meu relacionamento com o Teatro aconteceu por acaso. Tinha ido assistir a um ensaio da minha prima, ela participava de uma companhia chamada Cisne Selvagem. Eles estavam ensaiando um espetáculo chamado Psicose. Eu tinha meus onze anos. O elenco era bem maduro, mais idade.

Tinha uma cena que um garoto de mais ou menos minha idade tossia; era um efeito de sonoplastia. Naquele dia, o diretor percebera minha presença e quis imprimir um toque realista à cena. Lá estava eu atrás de um banquinho, tossindo. Minha primeira participação.

Fiquei na companhia. Fiz Rabicó, do Monteiro Lobato; fui todo pintado de rosa. Eu bem gordinho e fazendo grunhidos: "Oinc, oinc, oinc...". E já pequenino gostava do ator que fazia Visconde, eu queria ser o ator que fazia Visconde. Ele era engraçado. Como a maioria das crianças, gostava do engraçado e daquilo que me é estranho. Até hoje guardo uma vontade enorme de representar o Visconde.

Com um tempo, houve a proposta de eu fazer o Pedrinho. Faltava uma semana para uma temporada. Eu não consegui decorar, tive de abrir mão. E um ator veterano supriu a necessidade. Com um tempo, concorri com um ator para o papel do anjo Gabriel. Meu apelo era a minha idade e meu rostinho angelical. O apelo dele era a elegância, a brancura, a voz; ah, ele era um ator de vinte e poucos anos, e eu, um esboço de ator. Ele ganhou. E eu me desdobrei em dois personagens os quais não lembro o nome. Um, se não me engano, era filho de Herodes, o outro era um... não lembro. Mas fiz dois personagens.

Daí, tive de me afastar do Teatro. Motivo? Preconceito familiar, notas más na escola, indisciplina e rebeldia, sem contar que minha prima tinha saído também; no caso dela, pura opção, tinha começado a namorar. Só retornei quando comecei a trabalhar, com os meus dezoito anos. Aí, ninguém poderia me segurar ou implicar com os meus próprios investimentos.

É onde estou até hoje, desde 2008. E é a partir daqui que quero detalhar as coisas e causas.
...

25 de outubro de 2011

Brincando de Persona




Agora, você existe, tá? Você tem olhos verdes, fala complicado, nasceu na África. Tem 1,69m, magro na medida incerta. Gosta de filosofia, Caetono Veloso e outras drogas intelectuais. Você se parece comigo, querido! Mas, entenda que você não sou eu.

Eu vou brincar com você. Eu vou te colocar num lugar onde você nunca esteve.

Agora, você está num lugar totalmente branco. Um lugar onde seus olhos tentam enxergar cores, mas só há o branco. Sua roupa é branca. Assuste-se! Ande, assuste-se! Isso. Quero te ver chorando.

Eu acho lindo quando você chora! Olha, repara no espelho que eu coloquei neste lugar branco. Enxerga? Seus olhos brilham, menino! Você é lindo demais! Perceba-se. Acredite em você. Invadindo o teu psicológico, você não acredita em você. O que eu devo fazer?

- Por que você está fazendo isso comigo, narrador?

- Por que eu gosto de estados tristes, densos, naturalistas.

- Mas eu sou tão parecido contigo! Num faz isso comigo! Por favor!

- Desculpe-me, meu caro!

Ele está de frente para todas as pessoas que o encataram. Todas as pessoas estão sendo veladas por grãos de areia de uma praia na qual ele nunca esteve. Os grãos de areia gargalham como rinocerontes indo ao ataque. Todas as pessoas mortas, não vê?

- É mentira!

É verdade. Tente imaginar, tente perceber que a imaginação é uma realidade antecipada, meu homem! Veja. Berra! Grita! Imagina, por favor!

- Não tem jeito, narrador! Não tem jeito. Estou sufocado num niilismo maldito! Desculpa.

Tem jeito!

- Tem?

Você não é eu. Você nunca foi. Você é uma praga, uma leitura errada de conceitos filosóficos. Eu preciso destruir você.

- Você não acredita em mim.

Não, meu caro. Eu preciso acabar com você!

- Mas eu sou você.

Hum, não tanto. Dividimos o mesmo corpo, por isso mesmo o mesmo coração, a mesme mente. Mas eu vou te buscar onde você estiver. Eu vou acabar com você.

- Num faz isso comigo.

Eu sinto compaixão de você, sabia? Eu queria cuidar de você, da sua depressão desmedida e ilógica. Todo esse sofrimento antecipado de coisas inevitáveis. Inevitáveis, meu Deus! Chega de Tragédias! Deixa a tragédia pro final!

- Mas, entenda...

Não! Não vou entender! Minha reza diária será no intuito de te caçar no meu incosciente. Quando eu te encontrar, meu caro, quando eu te encontrar, ou você será um gatinho morto ou um leão feroz!

- Então, venha, seu babaca!

20 de outubro de 2011

Notas sobre um certo vídeo cartesianista

É preciso a primeira verdade e daí desenvolve-se a segunda, terceira, quarta...

Se você é inteligente e eu sou inteligente, quem está com a verdade? Se eu viajo para outro lugar com outros costumes, outros deuses com quem está a verdade?
Existem saberes diferentes...

Investir nas dúvidas..

A razão caminha entre o universal e o necessário. Racionalidade é colocar as coisas sobre o julgamento da razão.

Se eu não penso numa coisa é por que tem um gênio maligno que não me deixa pensar... o gênio maldito faz a lógica ser ilógica.


Existem dois tipos de filosofia:
a penso, logo existo e a existo, logo penso.

Oração




Universo, Seres, Deus,
escutai as minhas preces!
Dai-me lucidez,
a fim de que eu esteja consciente dos meus atos.
Abre-me os meus olhos e os meus poros,
a fim de que a minha vida não tenha tempos mortos e letárgicos.
Preenche-me do sopro da vida e faz-me levitar sobre
os destroços do mundo pós-moderno.
Dai-me paciência, ó Deus Harmonia!
Dai-me tolerância, ó Caos Maldito!

Universo, Seres, Deus,
escutai as minhas preces!
Renova a minha fé perante todas as dores do mundo.
Enxuga as minhas lágrimas vertidas pelo sofrimento do outro.
Preenche-me o espírito de felicidade desmedida.

Livrai-me do Ceticismo, Ateísmo e Niilismo!
Que seja esclarecido o princípio fundamental, a primeira verdade!
Que eu seja compreensível aos saberes diferentes e ao desconhecido que pode apavorar-me.
Que esteja sempre disposto ao Espanto e à Admiração!
Que eu duvide dos fundamentos e não das coisas!
Que eu tenha muitas paixões e não desenvolva vícios.

Universo, Seres, Deus,
não me abandonem por eu ser este fraco,
vulnerável, infame, miserável!
Tenho todos os defeitos do ser humano,
aperfeiçoai-me as virtudes.

Faz-me justo.

Acima de tudo, peço a verdade.
Peço a realidade, a verdade e o amor.
Conduz os meus passos comedidos por sobre a corda esticada.
E que eu não seja capaz de fazer da corda sobre os meus pés, a forca do meu pescoço.

Amém.

18 de outubro de 2011

Identifique-se



As pessoas assumem o papel de protagonista de suas vidas; incorporam, dentro de certos limites, um dos três possíveis arquétipos literários:

Herói
Repleto de valores nobres e preocupado com o bem comum. A vida está em função das pessoas de quem ama. É o típico vencedor. É o predestinado ao final feliz, e depois disso correrá sério risco de morrer de infarto.

Anti-herói
Triste figura que desempenha todo o fracasso dos seus atos. Problemático e inapto a vida do momento em que vive no seu contexto social; sofre e é um dos mais ricos dos seres humanos, mas não se deixa conhecer pelo outro. Não se permite à vida. Predestinado à monotonia, à repetição e ao niilismo. Possível óbito por razões suícidas.

Herói Trágico
Pode ser entendido como um misto entre o anti-herói e o herói. No entanto, os seus atos são lançados a frente de sua vida. A vida desta pessoa é guiada pelo lema "Aqui se faz, aqui se paga". Comete erros, faz más escolhas, é desmedido e intolerante. Aproveita a vida de qualquer forma: de tudo ao nada, comendo uma maçã ou fumando drogas. Predestinado à queda, à decadência. O óbito é o mais enigmático, mas o mais aterrador e alucinante.


É de extrema relevância um estudo mais apurado e profundo sobre o psicologismo dessas minhas palavras. Para mim, de nada resta senão a audácia de tentar caminhar sobre o arame farpado que divida dois lados da minha vida: o heroísmo e o anti-heroísmo. Mas sou, deveras, um anti-herói.

16 de outubro de 2011

Dia de Chuva em Petrolina




"O título deste texto faz alusão a um conto chamado Dia de Chuva em Macondo cujo autor é Gabriel García Márquez; a fotografia é de uma artista cujo nome é Miza Limões"


Amanheceu o dia, amanheceram os pensamentos com dúvidas e dogmas. Já estava acordado quando meu irmãozinho de dois anos chegou me abraçando, eu ainda deitado. Aquele calor ingênuo, aquele cheirinho de frescor de vida, aquele toque suave, sublime... E o cheiro de uma chuva anunciada. Um céu mascarado de límpido, transparente. Um céu dissimulado. Eu tinha de ir para o ensaio do teatro.

Joguei, permiti, ousei, transcendi... fui mais e mais, além do mais. Imaginei, acreditei. Fiz tudo como se fosse o dia da minha grande despedida do teatro do mundo. Estou vivendo assim, com um ar de ir embora. Pasárgada, Macondo, Reino das Águas Claras, tanto faz! Não tem muito sentido falar isso agora mesmo. Quem sabe se com as àguas do céu, eu seja levado para um desses lugares. Errei, acertei e a chuva, nada. O céu continuava dissimulado, forçando um calor miserável para enganar os meus sentidos. Estou enganado, não chove hoje, pensei.

Teve o momento do almoço, o momento do lanche da tarde e o momento do café ou janta, e a chuva, nada. Quando o ar da noite tocava, roçava minha pele, era claro, era evidente, era a humidade sem nenhuma pretensão de ser humilde. Choverá, pensei, e não chovia, observava. Um impasse maldito foi alstrando-se no meu ser. Já chovia por dentro, eu me transformava em chuva. Isso devido a um jogo dramático o qual deveria ser realizado tendo como matriz energética(vocábulo técnico do teatro, designando o lugar donde irradia energia para o corpo todo) a coluna vertebral. Minhas vértebras disassociavam-se e chovia, chovia! Meu tronco parecia plástico, parecia aquele lápis que entorta até certo limite.

A grande tempestade foi chegar próximo, tão próximo de uma amiga, e de um amigo. Ficar próximo demais, ainda que resvestido de personagem, era eu, era eu, era eu! A relação com o outro, com o parceiro de jogo, dava-se pela coluna. Lá estávamos, nós dois. Eu chovia, chovia muito e por muito pouco eu não chorava. Sabe por qual motivo eu chovia? Por ter suportado tanto durante muito tempo. Eu sempre estive carregado, cinza, enigmático, profético. Eu faço esse tipo de pessoa. Eu sou uma pessoa de céu fechado, que fique claro. Não sou o céu de um belo dia, de um belo amanhecer, de um entardecer ou amanhecer do fetiche dos enamorados. Sou um céu carregado, cinza; capaz de provocar a fertilidade e arrancar plantações. Mas não estou aqui para falar de mim, ao menos somente.

Queria falar do encontro com ela, mas as letras são insuficientes. Só quero deixar registrado: estive embriagado de você. Muito mais além. Parodiando um certo personagem, estive acima do amor e da verdade. Tal palavra que expresse o ato de superar amor e verdade, para mim, ainda não existe no meu dicionário. E a chuva, nada.

Quando parei e pensei, se a chuva vier, já não há grande importância. Foi aí que ela veio. Vestida das cores da saudade, para provocar, aposto. A chuva veio somente para intensificar a saudade de alguns minutos atrás, dos exatos instantes no qual eu estava com você, chovendo.