16 de janeiro de 2012

(500) Dias com Ela

Ainda não sei analisar um filme, talvez por isso tenha ficado com inveja da resenha crítica de um amigo meu (Uriel Bezerra) sobre o filme que tentarei analisar. Qualquer dia desses paro para criar uma modelo de análise. É que ele aborda o filme de maneira magistral, passeando por conceitos abstratos e concretos com aplicabilidades práticas. Com êxito, fala do sumo da história, do núcleo. Não tentarei imitá-lo, mas com desejo de não desmerecê-lo(ainda que ele e conhecidos nunca venham a ler isso), acabarei por (ex)-citá-lo em algum momento deste texto. Vale dizer que o veículo da informação é diferente, enquanto ele usou uma revista eletrônica acadêmica, eu, um blog repleto de objetividade subjetiva. Vamos ao que interessa!



O filme começa com uma dedicatória clássica do cinema, aquela que diz "qualquer semelhança é mera coincidência", e completa com uma mensagem provocadora: "principalmente para você,..., vagabunda!". Eis que temos na abertura, uma linguagem fluída, desenhos singelos, músicas ternas : uma comédia romântica, como diz o Bezerra, um pouco distante do habitual público do gênero cinematográfico, as garotas. O nome 500 Dias com Ela é mentiroso em aparência e sincero em profundidade; quem o compro, o aluga ou simplesmente o nota, jura que é a história de um rapaz que convive 500 dias com a mulher amada, e mais, caso leia a sinopse, ele tenta entender o que deu errado no relacionamento durante todo esse tempo. Agora, vamos desvelar o velado. Tom, o herói moderno, conta a partir do dia que a conhece e não estará com ela o tempo todo. Isso porque a vida separa-os, mas deixa a lembrança dos olhos, dos joelhos e da pintinha em formato de coração entre os seios de Summer, a nossa quase-heroína.

Desenvolvendo uma temática complexa, os relacionamentos humanos, o filme questiona a existência do amor, a influência do acaso e o caráter da coincidência e seu parente próximo, o destino. Talvez, por pretender-se tão abstrato, soe filosófico. E o é. Não consigo observar um tom despretensioso por parte do filme, sempre trabalhando por conceito-imagens e até chegando em museus de arte contemporânea, questiona a própria função da arte. Uma produção cinematográfica digna da Nouvelle Vague, apta aos temas de Woody Allen e dinâmica como a narrativa de um Tarantino.



De um jeito muito melancólico, a história encaminha-se para o Não. A gente ainda acredita, ou melhor, deixa-se iludir pela brincadeira do ir e vir dos dias remotos. O filme, o diretor e o roteirista tal qual a vida, implacável, confirmam o que desde o começo era esperado. Duas pessoas tão diferentes podem dar certo? Ela que tinha tudo para acreditar no amor (a saber: boa educação, família estruturada, boas notas, boa sociabilidade com amigos e parentes) sucumbe a realidade esmagadora da animalidade humana. Ele que tinha tudo para ser um drogado, viciado (a saber: preferência pelas músicas tristes britânicas, anti-sociabilidade, incapacidade de lidar com mulheres) é direcionado a plenitude da condição do ser humano enquanto ser CONSCIENTE DA SUA ETERNA FINITUDE.

E o amor, em meio a sociedade cibernética, velox e instântanea resistirá às tentações de experimentações? Será que o amor como conhecemos hoje sempre foi o amor? Será que fidelidade é segredo, o motor, a engrenagem principal de uma relação? Sobre essa última pergunta, respondo: não. Tal qual dois filmes asistido por meus olhos, Cenas de um Casamento, do Ingmar Bergman, e Peter e Vandy, do Jay DiPietro, esse último com uma narrativa também não-linear, percebo-me em total estado de epifania: o amor precisa ser comunicado. E bem clichê seria eu lembrar da Julia Roberts falando, em entrevista ao programa Fantástico da Rede Globo, sobre Comer, Rezar, Amar, que toda relação precisa de diálogo.




Numa mesa de bar, o amigo bêbado, ela com alguma dose de álcool e ele um pouquinho fora de si, conversam:

- Eu não acredito no amor, é uma fantasia! - Ela diz sorrindo.

- Eu estou falando de amor, não de Papai Noel.

Ela contra-argumentará e ele ficará abalado com tamanha credulidade naquelas palavras indesejadamente proféticas.



Quando eu assistir novamente, farei um mais novo texto. Como a vida e como a obra de arte que precisam constantemente de um mais novo olhar.

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