
Mais um livro de memórias do que um livro de ficção. Mais um registro de psicologia social do que romance regional. É um livro que não aceita rótulos com facilidade. É um livro que recebe o leitor com um aconchego infantil, com palavras repleta de ternura e travessura.
O persongem principal chama-se Zezé, menino de cinco anos que jura ter seis para ser aceito no colégio público. De família sem privilégios, sedentos de alimentos e arte, ele desenvolve uma sensibilidade sem igual para as coisas. Muito devido aos ensinamentos do seu Tio Edmundo, que fala sobre a sociedade e as outras causas do mundo. Aliás, o senhor Edmundo é a fonte primeira da sabedoria precoce do menininho. O confidente primeiro foi o pequenino Pé de Laranja Lima que servia como um psicólogo; só a arvorezinha sabia os sofrimentos do menino, mas também dos sonhos de ser um astro daqueles do filme do velho oeste.
- Por que as pessoas dizem que o meu padrinho é o Diabo?
Diziam isso para ele. Não por acaso, ele fazia jus a isso. Como assim, Diêgo(quem esceve), você está defendendo os parentes de uma criança que o define como afilhado do Diabo?! Não, não é isso. É que o Zezé inventava situações travessas. Uma vez, não por maldade, arranjou uma meia na estrada e pensou que daria uma ótima cobra; e a fez com talento e rigor, a ponto de assustar uma mulher, que por infelicidade dele, estava grávida. Ainda bem que ela não "perdeu" a criança. Imagino o rumo da história ir para outro caminho. Ele ficaria traumatizado, não conheceria o seu grande amigo, o velho Portuga, abandonaria o Miguinho ainda ainda mais cedo e se fecharia para o mundo de maneira mais entecipada e amargurada. Mas nada disso aconteceu.
Zezé pendurou-se no carro de Manuel Valadares, que não o perdoou da façanha do menino. Deu umas palmadas nele, assim tornou-se o pior inimigo do menino, despertando uma emoção nele, o ódio. Mas que... como o mundo gira, dá voltas... a narrativa também tece situações que caminham rumo à contradição, às peripécias, às desmedidas, graças a Deus e aos demiurgos!
Com efeito, Manuel Valadares recebeu a alcunha de Seu Portuga. Do ódio ao inimigo nasceu o amor supremo ao mais novo amigo. E do amor supremo nasceu o mais doloroso ato de perder, de deicar ir. Um trágico acontecimento faz com que o leitor fique em estado de transe. Uns podem verter lágrimas sobre as páginas, outros, tais como eu, podem deixar na represa dos sentimentos uma sensação que, de fato, é um nó na garganta.
Ainda é tempo, é sempre tempo. De pedaço em pedaço é que se faz ternura. E como já diz a Xuxa, não bata (nem com palavras nem com olhar), eduque! E para isso, é preciso saber o que é Educação.
Nenhum comentário:
Postar um comentário