E se você se apaixonar perdidamente, sem pensar no futuro. Apaixonar-se loucamente, assim sem mais nem menos. Não existe mais paixão hoje em dia? Pode ser, mas pode ser também que não exista paixão nos olhos de quem enxerga e julga não haver. Mas, agora, vamos tentar enxergar isso num ser apaixonado.
"Oh Senhor,
Eu estou cansado.
Eu sou um homem em chamas.
Eu ainda a mantenho em minha mente
Então eu não sei bem porquê"
"O coração tem razões que a própria razão desconhece". É disso que tento falar, o homem da situação é totalmente passional. Está à deriva. E o lindo nos personagens planos, àqueles que pouco demonstram capacidade de alterar o seu destino, àqueles vulneráveis demais, é exatamente a profundidade esmagadora do universo sensível criado dentro deles.
"Bem, meu coração foi roubado
Por uma garota vestida como uma santa.
Oh, ela não tem nome.
Mas é viciante como cocaína"
O coração ser roubado, vamos tentar imaginar isso. É possível notar a violência e sujeira das palavras "cocaína, roubado, viciante" se comparadas as palavras tão "castas" que vinham sendo ditas. Nosso personagem apresenta-se consciente do que aconteceu, mas não entende como permitiu que isso acontecesse, ou melhor, como isso aconteceu. Nesse momento aparecem certezas e incertezas sobre quem é a mulher. Seria uma santa na aparência ou na essência? Se é santa por qual motivo é viciante, sendo o vício um pecado?! Por ainda não ter nome, é sugerido uma pouca falta de intimidade com a mulher. Poderíamos estar diante de um Pierrot totalmente fantasioso em relação aos sentimentos da amada.
"Eu sou um homem em uma corda bamba
Eu sou um homem em uma corda bamba
Eu sou um homem"
O que me inquieta é saber o que está abaixo da corda. Seria o abismo que Nietzsche um dia mencionou? O que sustenta de um lado e do outro a corda esticada? E com que forças nosso personagem consegue está ali? Será que a paixão é um misto de riscos e comedimento? Será que tudo ganha proporções maiores, como o balançar de uma mão e um virar de rosto?
"Oh, Senhor,
Se eu cair de joelhos
Oferecendo-lhe alguns elogios,
Você poderia aliviar meus medos?
Ou a minha miséria?"
Deveríamos ter falado sobre a primeira palavra da música, o vocativo "Oh, Senhor". Mas agora que a oração (e a palavra é exatamente essa, a música toda é uma oração a um ser divino que confude-se com uma conversa de amigo para amigo. Para mim, este trecho é um dos mais lindos. Toda a fragilidade do ser humano é exposta. O personagem plano (o qual deveria ter definido de eu-lírico) começa a falar sobre sua condição de ser, eu penso em pranto, só consigo imaginar esse trecho aos prantos.
Os versos "Se eu cair de joelhos / Oferecendo-lhe alguns elogios" pode sugerir uma pessoa que tenta negociar com Deus, dessa forma, percebemos que o nosso eu-lírico era, e pode continuar sendo em grau menor, um ser racional. A razão que se percebe em total estado de miséria.
"Você sabe, meu coração foi roubado
Por uma garota vestida como uma santa.
Oh, ela não é minha amiga
Mas continua pulsando em minhas veias"
De fato, não há um vínculo muito forte entre o sujeito e o "objeto de desejo". Nosso Pierrot está profundamente encantado por uma pessoa que acabara de conhecer, entenda a palavra conhecer como "Espantar-se, Desvendar, Enxergar com olhos, nariz e toque".
Mas o tato talvez se sobressai nessa parte da canção. O pulsar na veia retoma a cocaína e o estado de tensão no qual se encontra o homem.
Eu sou um homem em uma corda bamba.
Eu sou um homem em uma corda bamba.
Eu sou um homem.
A canção caminha para o encerramento, enquanto o homem caminha para um lugar onde não sabemos o que o espera. A condição dele está no máximo cuidado em continuar na corda bamba, uma vez que Deus não o respondeu sobre a negociação.
"Eu sou um homem em uma corda bamba.
Eu sou um homem em uma corda bamba.
Eu sou um homem".
Chama-me a atenção o fato de terminar com a omissão da corda bamba, "Eu sou um homem". Nossa mente, pelo menos a minha mente completa o restante da frase. E nós na condição de ser homens, melhor, humanos, identificamo-nos com o eu-lírico por estar sujeito a qualquer coisa. Como dizem, para morrer (mas também amar, encantar-se, iludir-se, apaixonar-se, sofrer, perder, ganhar), basta está vivo.
Nenhum comentário:
Postar um comentário