24 de dezembro de 2011

Morte in Vida (ou Lendo Pedro Páramo)




Da minha família, ao que me consta, já se foram: Marcelo, meu tio(assassinado), A irmã de minha vó paterna(leucemia), Janinha, minha prima(atropelada), Reinaldo, um tio de consideração(câncer de pulmão), Dona Chica, minha bisavó(falha múltipla dos órgãos, morreu a dormindo). Todos eles não existem mais, ou melhor, até existem na condição de fantasmas.

O conceito que sigo: Fantasmagórico é aquilo que é feito de ideia e tem caráter volátil. Aquele pensamento típico de um leitor que vai lendo e imaginando, e se perdendo, e vivendo, e se emocionando. Nunca tive uma experiência sobrenatural, nunca tive uma que valha a pena de toda a minha curta existência. Por isso, fantasmas são coisas que surgem dentro da gente e adquirem contornos surreais.

Juan Rulfo é o escritor latino americano de grande influência na obra do escritor mais admirado por mim: Gabriel García Márquez. Lendo a obra do primeiro, facilmente percebo referência buscadas nessa: Agosto, Canícula, Espaço-Tempo ínfimo, Personagens Doentis, Descrições Sinestésicas. E, arbitrariamente, julgo-me inapto para a leitura desses dois. Mas já me antecipo para mais tarde assustar-me da ingenuidade do leitor que sou hoje. De antemão, guardo algumas impressões do tempo, do espaço, do enredo, dos personagens, do estilo da narrativa do grande clássico mexicano contemporâneo: Pedro Páramo.

Escreverei mais por aqui. Pretendo ter a visão completa da leitura. Por enquanto, encontro-me no meio das singelas páginas.

Vislumbro personagens que aparecem e desaparecem. Indicam um caminho, contradizem os atos, lamentam. Murmuram demasiado. São mortos que falam com os vivos sobre o queixumes deixados quando feitos de nervos e sangues. São seres amargos que se queixam da indiferença e insensatez de um pai sempre distante: o próprio Pedro Páramo.

A exegese está só começando... investigar a morte em vida será o próprio trabalho de investigar o meu suicídio cotidiano.



Há no México, numa atemporalidade não distante, uma cidade chamada Comala. "Vim à Comala porque me disseram que aqui vivia o meu pai: um tal de Pedro Páramo", assim se inicia a saga de Juan Preciado o nosso narrador casual e personagem identitário(aquele com o qual nos sentimos mais próximo). Ele apresenta-se já na cidade e relembra motivo de estar ali. A mãe no leito da morte, segurando a mão do filho, implorou para que ele retorna-se à Comala dos sonhos dela e pedisse o que era deles por direito ao injusto marido que a abandonara. É por esse filho que honra o desejo e a promessa feita a mãe que vamos adentrando num universo de persongens guiadores do caminho para encontrar o pai. O problema é quando esses persongens contradizem o personagem anterior, ora dizendo que o outro está morto, ora dizendo que não sabia que o outro ainda estava vivo. É como um vilarejo de casas invisíveis uma as outras. Como um labirinto!

Aliás, eis uma das metáforas mais bem apropriadas ao estilo primitivo tanto de Juan Rulfo quanto dos estilos fantásticos. Uma narrativa que vai se construindo sorrateiramente, ergue muros, restringe espaço, às vezes, claustro: um labirinto, uma emaranhado, um monte de perspectiva, uma fragmentação do que é completamente complexo, o sobrenatural.

Encontramos pelo caminho Abundio(um viajante que diz dos aspectos geográficos dos montes da Media Luna e dos latifúndios de Pedro Páramo), Eduviges(uma senhora amiga de Dolores, mãe de Juan Preciado, nosso narrador casual, que escuta os queixumes dos mortos e é a primeira a revelar o aspecto metáfisico da obra, Fulgor Sedano(administrador das propiedades da família Páramo). Claro, os personagens seriam muito planos se apresentados somente pelas funções sociais desempenhadas no contexto da obra literária, porém, as atitudes desempenhadas por eles, frente às adversidades da economia/política do vilarejo, demonstram que são capazes de qualquer coisa para SOBREviver. Aliás, ah...os "aliás". Aliás, o verbo SOBREviver é uma palavra de comando para todos os personagens.

Eles enfrentam situações limites. Miguel Páramo, pai de Pedro, a não aceiação de sua morte acidental; Pedro Páramo ao perder, acidentalmente, o filho, Lucas Páramo, num tiroteio de casamento. Dolores ao indignar-se da situação miserável na qual ela e o filho(de um homem tão afortunado) encontravam-se. E os moradores da Comala esquecida, em suas casas despedaçadas, sem objetos, secas, zeradas. Por sinal, não lembro-me de nenhuma descrição de alimentação por parte dos personagens(só do momento em que promete-se caçar uma ovelha, na verdade, desculpa de um morador do vilarejo para abandonar a mulher).




Opressores e Oprimidos, Labirinto das Compreensões Comunicativas, História de Sobreviventes Colonizados, Questões de Poder, Manifesto à Vingança: tudo isso poderia ser título de um prólogo. Mas numa questão mais universal, ampla, abrangente, por isso, talvez, superficial, digo: Pedro Páramo mostra que existem pessoas que falam com os vivos, trabalham com os vivos, lembram-se dos vivos, mas já estão mortas. Mortas por dentro. Mortas por não terem sentido. Mortas por estarem vagando num mundo imagético, rápido, intenso. Mortas por estarem sendo vítima de uma política do biopoder, uma política que desumaniza, assujeita. É possível viver estando já morto em vida?

Eu poderia ser um desses espíritos orfãos de pai, que conversam com Juan Preciado. Diria-lhe: Juanzito, esquece teu pai e vai em busca de tua vida, já que tua história hereditária só te fará sofrer. Juan diria-me: quero ter consciência e saber porque sou quem sou e quem poderia ter sido. Diria-lhe: Então, vá! Vá, segue adiante por estes montes infinitos. Mas não deixe que lhe tirem essa ânsia pela verdade, pelo que é certo! Vá. Não deixe que esse monte de zumbi lhe pertube o juízo. Se for para escutar alguém, escuta tua mãe que está dentro de teus pensamentos. Até minhas palavras, messa!

Se eu fosse o próprio Juan Preciado, bem... não sei o que faria. Por isso, quem sabe você, leitor, saiba o que fazer. Eu estaria de mãos atadas, quase morto.

Um comentário:

  1. ... maravilha, Johnatan! ... Você fez uma leitura bem pessoal de "Pedro Páramo", gosto demais da pessoalidade saindo aos borbotões, por todos os lados. Um grande abraço!

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