16 de outubro de 2011

Dia de Chuva em Petrolina




"O título deste texto faz alusão a um conto chamado Dia de Chuva em Macondo cujo autor é Gabriel García Márquez; a fotografia é de uma artista cujo nome é Miza Limões"


Amanheceu o dia, amanheceram os pensamentos com dúvidas e dogmas. Já estava acordado quando meu irmãozinho de dois anos chegou me abraçando, eu ainda deitado. Aquele calor ingênuo, aquele cheirinho de frescor de vida, aquele toque suave, sublime... E o cheiro de uma chuva anunciada. Um céu mascarado de límpido, transparente. Um céu dissimulado. Eu tinha de ir para o ensaio do teatro.

Joguei, permiti, ousei, transcendi... fui mais e mais, além do mais. Imaginei, acreditei. Fiz tudo como se fosse o dia da minha grande despedida do teatro do mundo. Estou vivendo assim, com um ar de ir embora. Pasárgada, Macondo, Reino das Águas Claras, tanto faz! Não tem muito sentido falar isso agora mesmo. Quem sabe se com as àguas do céu, eu seja levado para um desses lugares. Errei, acertei e a chuva, nada. O céu continuava dissimulado, forçando um calor miserável para enganar os meus sentidos. Estou enganado, não chove hoje, pensei.

Teve o momento do almoço, o momento do lanche da tarde e o momento do café ou janta, e a chuva, nada. Quando o ar da noite tocava, roçava minha pele, era claro, era evidente, era a humidade sem nenhuma pretensão de ser humilde. Choverá, pensei, e não chovia, observava. Um impasse maldito foi alstrando-se no meu ser. Já chovia por dentro, eu me transformava em chuva. Isso devido a um jogo dramático o qual deveria ser realizado tendo como matriz energética(vocábulo técnico do teatro, designando o lugar donde irradia energia para o corpo todo) a coluna vertebral. Minhas vértebras disassociavam-se e chovia, chovia! Meu tronco parecia plástico, parecia aquele lápis que entorta até certo limite.

A grande tempestade foi chegar próximo, tão próximo de uma amiga, e de um amigo. Ficar próximo demais, ainda que resvestido de personagem, era eu, era eu, era eu! A relação com o outro, com o parceiro de jogo, dava-se pela coluna. Lá estávamos, nós dois. Eu chovia, chovia muito e por muito pouco eu não chorava. Sabe por qual motivo eu chovia? Por ter suportado tanto durante muito tempo. Eu sempre estive carregado, cinza, enigmático, profético. Eu faço esse tipo de pessoa. Eu sou uma pessoa de céu fechado, que fique claro. Não sou o céu de um belo dia, de um belo amanhecer, de um entardecer ou amanhecer do fetiche dos enamorados. Sou um céu carregado, cinza; capaz de provocar a fertilidade e arrancar plantações. Mas não estou aqui para falar de mim, ao menos somente.

Queria falar do encontro com ela, mas as letras são insuficientes. Só quero deixar registrado: estive embriagado de você. Muito mais além. Parodiando um certo personagem, estive acima do amor e da verdade. Tal palavra que expresse o ato de superar amor e verdade, para mim, ainda não existe no meu dicionário. E a chuva, nada.

Quando parei e pensei, se a chuva vier, já não há grande importância. Foi aí que ela veio. Vestida das cores da saudade, para provocar, aposto. A chuva veio somente para intensificar a saudade de alguns minutos atrás, dos exatos instantes no qual eu estava com você, chovendo.

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