
Distante da casa, pela janela ela olhava o ar cabisbaixo do boneco de farrapos. Exposto numa cruz, como Jesus Cristo ou como Judas, estava expusando os males da humanidade. Toda a metáfora da condição humana estava nele, cravado nele.
Aves sobrevoavam os arredores das plantações de trigo, e ele fingia ser um humano. A menina entristecia-se pela incapacidade do amigo; a situação intensifica-se quando um abutre pousa no seu ombro fictício. Uma bicada, outra bicada, sucessivas bicadas provocam uma lágrima que percorre o rosto clássico da menina do campo. E uma lágrima é ponto de partida para uma cachoeira. Tal como Prometeu Acorrentado ele fica inerte pagando por uma dádiva sobre-humana.
Sofya olha os finos braços, o falso nariz e percebe-se tão frágil quanto o amigo crucificado. Identifica-se com a imperfeição, com a ignorância, mas não reconhece o amor sublime que o crucificado representa à humanidade. Sofrendo ali, sem expressar os sentimentos que quer, reprimido... calado, subjugado, subordinado.
O Espantalho, de tão feio e deprimido, disse:
- A falta de beleza não se deve a minha falta de verdade. Sou feio porque assim me criaram. Sou feio para não estragarem tua plantação. Protejo-te afastando o perigo de ti, e angustiamente, afasto-te. Meu amor é de vidro, e todo dia quebra-se ao ser observado pelo seu olhar simplista. Você nunca irá me reparar, me perceber. Mas eu estarei aqui, te protegendo do mal.
A mensagem é levada pelo vento aos ouvidos da menina. Mas no percurso, aos ares do campo, perde-se um pouco, soma-se alguns cantos dos passáros, alguns ruídos de máquinas e respiração de sestas. Chega algumas palavras ao ouvido dela.
- Faço isso por amor, um amor que nem mesmo um ser vivo é capaz de sentir. Um amor passional ao extremo. Um amor que é dor e paixão. Um amor de pedra, rocha...
Então, os pais dela abrem a porta e chamam a menina para ir às compras do mês. Adolescente que é, enxuga o rosto e vai.
- O que foi, meu anjo?
- Nada, pai. Só bobagem (minha primeira bobagem).
Lá fora, o espantalho é desfeito pela dança dos abutres. Dentro do carro, a menina observa a maldade vivaz sobre a cruz nas plantações, enquanto a distância vai se realizando. Sofya pensa: Amanhã, farei mais um outro espantalho.
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