
O filme de 1983, de nome-título Zelig, lembra-me muito um conto fantástico do Murilo Rubião, Os Dragões. Mas não pretendo escrever sobre tal aproximação. Pretendo escrever sobre o grande ponto filosófico do filme: até que ponto nós somos nós mesmos? Ainda mais agora em meio a tecnologia cibernética. E não quero ser visto/entendido/lido como purista. Tento refletir, por uma consciência efêmera baseada nos bits da rede social, sobre quando nós não somos nós mesmos para tentar ser o outro. Tento refletir acerca do momento em que nossa felicidade é exterior a nós mesmos e encarnada no outro.
Psicótico ou neurótico, o nosso personagem-título foge às convenções habituais. Nasceu predestinado, coitado. Teve de carregar o peso insuportável da vida determinada, assinada, carimbada com todo o direito da burocracia de órgãos públicos. É um sofredor, mas às luzes dos holofotes do mundo americano, o sofrimento é louvável. A ideia do sofrimento, o ideal de sofrimento, a catarse aristotélica, a purificação do espírito. Jesus Cristo exposto na sala de estar, crucificado, mortal, sangrando, redimido, finito. O nosso Leonard, é um Jesus Cristo sem poder.
Em certa festa, conversou com diplomatas, deu ordem na cozinha, tocou instrumentos musicais. Cresceu com mania de querer agradar aos outros, a primeira lembrança disso vem da escola. Em certa aula, a professora questionou toda a turma sobre quem tivera lido "Moby Dick", todos da classe, exceto ele, leram. E naqueles poucos segundos de mãos que se levantam e ficam levantadas, Zelig mentiu, mas antes de ter mentido, sofreu pressão social. Inicia-se a aventura homérica do homem camaleônico que viveu intensamente na década de 20, escrito, dirigido e interpretado por Woody Allen.

Leonard Zelig é um bom selvagem que vai se deixando levar pelos outros, só assim ele poderá viver no seu tempo. Uma grande lição do filme seja o de aceitar a realidade, moldando-se a ela. E nós já não seremos uma essência, um uno; nós tenderemos a ser um produto do meio, um ideal de Durkheim. Vigarista? Político? Continuo pensando nas condições de neurose ou psicose.

A questão levantada inicialmente, de nós não sermos nós mesmos, rompe-se e dissolve-se aqui. Ser o ser é impossível. Somos o que somos é impossível. É preciso, muitas vezes, separar o poético dos fatos. Ser e estar são verbos de ligação. Ninguém é o que é; alguém é alguma coisa baseada em outra coisa. Não que sejamos exatamente, prontamente, integralmente um produto do meio; nós somos a visão que temos do meio e, consequentemente, a soma das coisas que nós aceitamos e incorporamos a nosso comportamento. Zelig é um caso especial, visto que ele não filtra o que é bom para si; tentando agradar, ele vai descontruindo a própria identidade.
Imputa-se, importa, percebe-se que com técnicas visuais fascinantes, um roteiro fraquinho e compulsivo, uma interpretação realista-naturalista-fantástica, o diretor/ator/roteirista Woody Allen empreende uma espantosa ideia típica dele: um sujeito espantado com o mundo que o cerca, o pressiona e tenta defini-lo.
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